“Você precisa ser feliz”, estampa um grafite em um prédio em ruínas em Havana. E, durante quase duas horas, na partida da Copa do Mundo entre Marrocos e Brasil, os cubanos seguiram o conselho e deixaram suas preocupações de lado.
A transmissão do Mundial pela televisão estatal cubana começou com dois dias de atraso na ilha caribenha de 9,6 milhões de habitantes devido a um problema no pagamento dos direitos de transmissão. No sábado, os moradores de Havana finalmente puderam assistir ao primeiro jogo pela TV.
Em um pequeno café do populoso bairro de Centro Habana, cercado por casas geminadas em tons pastéis, fachadas desgastadas e roupas estendidas nas sacadas, homens acomodados em bancos acompanhavam o duelo entre Marrocos e Brasil em uma pequena televisão presa à parede.
Cuba tem uma forte tradição no beisebol, e sua única participação em uma Copa do Mundo ocorreu há quase um século, em 1938, quando chegou às quartas de final.
Mas a chegada da internet móvel, há cerca de dez anos, impulsionou uma nova paixão, e o futebol passou a dominar, especialmente entre as crianças.
Quando a televisão estatal anunciou, um dia após a abertura do torneio no México, que transmitiria 16 jogos da fase de grupos e depois todas as partidas a partir das oitavas de final, o clima melhorou.
Agora, resta que a eletricidade faça sua parte. Com uma rede elétrica envelhecida e enfrentando há mais de quatro meses um bloqueio petrolífero imposto pelos Estados Unidos, Cuba sofre com frequentes apagões.
Ismael Veranes, diretor de recursos humanos do Teatro Nacional de Cuba, foi ao café assistir à partida porque estava sem energia havia 20 horas em sua casa, localizada nas proximidades.
Enquanto tomava um suco de frutas —um dos poucos pequenos prazeres que ainda se permite em meio à crise econômica—, ele afirmou que a Copa ajuda a aliviar a mente em uma rotina marcada por transportes precários e cortes de energia.
“Quando você volta cansado do trabalho, não tem eletricidade. À noite faz calor, há mosquitos, é terrível”, contou à AFP o homem, dividido entre sua torcida pela França e pelo Brasil.
Nostalgia
Uma hora antes do jogo, em uma esquina próxima, Michael, um fã de nove anos de Lionel Messi, e sua irmã Meiliuvis, de 10, brincavam de futebol com uma tampinha de garrafa sob o olhar de Che Guevara, retratado em um mural do outro lado da rua.
Se no passado os cubanos cresciam apaixonados pelo beisebol —Fidel Castro era conhecido por jogar diante das multidões—, desde a popularização dos smartphones, em 2018, “as crianças se inclinam mais para o futebol”, explica Osmany, pai de Michael.
Embora a crise também afete os campos de futebol da ilha, muitos deles “em condições muito precárias”, a Copa do Mundo “nos permite nos distrair por um tempo”, diz ele sorrindo.
Muitos cubanos falam com nostalgia de Copas anteriores, quando a televisão estatal transmitia todos os jogos e alimentos e combustíveis não eram tão escassos, exceto durante o início da década de 1990, após o fim da ajuda soviética.
Hoje, apenas bares com TV a cabo e cervejas caras exibem todas as partidas, deixando muitos torcedores do lado de fora, literalmente assistindo da calçada.
“Não é a mesma coisa”, lamenta Alan, de 36 anos, parado na rua com dois amigos e uma lata de cerveja na mão.
Ainda assim, em uma Cuba onde a crise aprofundou as desigualdades, alguns torcedores têm mais privilégios do que outros.
No arborizado bairro de classe média de El Vedado, em Havana, cervejas a um dólar circulavam durante uma festa organizada para acompanhar o jogo em um centro cultural decorado com bandeiras do Brasil e enfeites da Copa.
Do lado de fora, uma fila de veículos 4×4 evidenciava a existência de uma pequena elite beneficiada pelos salários em dólares do crescente setor privado, enquanto outros cubanos buscam comida em contêineres de lixo.
Mas mesmo ali a crise se faz presente: o sinal de televisão congela periodicamente, provocando protestos dos torcedores.
Para o biólogo Víctor Díaz, de 24 anos, poder acompanhar a Copa é motivo de celebração.
“Ter algo que alivie todas as cargas que enfrentamos diariamente é incrível”, afirmou.
noticia por : UOL


