terça-feira, 16, junho , 2026 07:25

Médico surpreende ao prescrever “igreja” e “cuidar de si”


Um médico lotado na rede pública de saúde de Piracicaba (SP) elaborou uma prescrição que incluía orientações como “igreja” e “cuidar de si” para um paciente de 22 anos que apresentava queixas de dores abdominais e paralisia facial.

A receita, divulgada em redes sociais na quarta-feira (10), foi emitida por profissional que associou os sintomas a um quadro de ansiedade. O médico condicionou o uso de um antidepressivo ao cumprimento prévio das demais recomendações.

A Prefeitura de Piracicaba informou que analisará administrativamente a conduta do profissional, mas garantiu que o paciente recebeu atendimento clínico completo na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Vila Sônia. A nota oficial do município consta na íntegra mais adiante.

Atendimento ocorreu na segunda-feira (8)

O jovem foi atendido no dia 8. Na receita, consta a indicação de fluoxetina 20mg, seguida das seguintes recomendações: “alimentação; exercício; cuidar de si; igreja; terapia (psicólogo/psicanalista); e remédio”. Ao final, o médico escreveu: “Observação: só fazer o uso da medicação se fizer todo o esquema”.

Em entrevista ao g1, o paciente – que teve sua identidade preservada pela reportagem – afirmou não ter histórico de ansiedade e disse que não mencionou religião durante a consulta, tampouco deu abertura para esse tipo de abordagem, embora seja proveniente de família cristã.

Ele relata estar há mais de um mês com dores e sem um diagnóstico conclusivo. No atendimento na UPA, segundo seu depoimento, o médico teria se comportado de maneira ríspida e sugerido que o quadro poderia ser de ansiedade e depressão. 

Nota da Prefeitura de Piracicaba

Em pronunciamento oficial, o município afirmou que a recomendação para atividades religiosas foi oferecida de forma complementar, com o propósito de “fortalecer hábitos saudáveis, oferecer suporte emocional e manter vínculos sociais e comunitários”.

A nota acrescenta que tais práticas podem “contribuir positivamente para o bem-estar de determinadas pessoas, de acordo com suas convicções e escolhas individuais”, algo que está compatível com inúmeros estudos que destacam a importância de uma abordagem holística na saúde.

O histórico do caso

Segundo o paciente, ele procurou a UPA no domingo (7), com fortes dores abdominais, no ouvido e na cabeça, além de paralisia facial. No primeiro atendimento, foi avaliado por uma profissional mulher, que administrou medicação para dor e solicitou seu retorno na segunda-feira (8) para nova avaliação, tendo em vista uma alteração renal identificada em exames.

Na segunda-feira, ao retornar, foi atendido pelo médico em questão. O jovem descreveu a consulta como ríspida. Ao perguntar sobre o problema no rim, o profissional recusou-se a tratar do assunto e deu o diagnóstico de ansiedade.

“Ele olhou para mim e falou que eu não estava com nada, que era ansiedade […] Eu relutei na hora, eu falei ‘ansiedade?’. Ele não gostou muito de eu ter questionado, de ter duvidado do que ele estava falando. E aí o atendimento parou de ser comigo. Minha mãe estava ao lado, ele começou a falar só com a minha mãe e me ignorar totalmente. Ele começou a falar com a minha mãe ‘Ah, mãe, ele tem ansiedade. Isso pode ser ansiedade’. Começou a me diagnosticar com ansiedade, depressão”, contou.

O paciente recebeu medicação para dor no local e, posteriormente, buscou atendimento em outra unidade de saúde.

Atualmente, o jovem faz uso de corticoides e realiza sessões de fisioterapia facial. Ele também obteve, por meio do posto de saúde, encaminhamento prioritário para neurologista e gastroenterologista. Paralelamente, a família busca atendimento na rede privada.

O que diz a Prefeitura (nota na íntegra)

A Secretaria Municipal de Saúde de Piracicaba informa que tomou conhecimento da publicação mencionada e esclarece que o caso será analisado administrativamente, conforme os fluxos institucionais aplicáveis a toda manifestação relacionada à assistência prestada na rede municipal de saúde.

Em relação ao atendimento realizado, os registros assistenciais demonstram que o paciente foi regularmente acolhido, submetido à avaliação médica completa, incluindo anamnese, exame físico, análise dos exames disponíveis, definição diagnóstica, administração de medicações durante o atendimento e prescrição terapêutica para continuidade do tratamento. Não houve, portanto, substituição da assistência médica por qualquer outra forma de orientação.

Cabe ainda esclarecer que o atendimento não se restringiu à emissão de receita ou recomendações gerais. O paciente recebeu avaliação clínica integral, tratamento sintomático, orientações médicas e encaminhamento para seguimento na rede de atenção à saúde, conforme a necessidade identificada durante a consulta. As recomendações registradas pelo profissional devem ser compreendidas dentro desse contexto assistencial amplo e não de forma isolada ou dissociada do atendimento efetivamente prestado.

A medicina moderna reconhece a importância dos aspectos biológicos, psicológicos e sociais envolvidos no processo saúde-doença. Nesse contexto, fatores como alimentação adequada, prática regular de atividade física, fortalecimento de vínculos familiares e comunitários, acompanhamento psicológico e estratégias individuais de enfrentamento emocional podem atuar de forma complementar ao tratamento médico, contribuindo para a promoção da saúde e da qualidade de vida, sem substituir as terapêuticas cientificamente estabelecidas.

No que se refere ao receituário divulgado, observa-se que o profissional registrou, além da prescrição medicamentosa, um conjunto de recomendações voltadas ao autocuidado e à promoção da saúde, incluindo alimentação adequada, prática de atividade física, cuidados pessoais e acompanhamento psicológico.

A referência à participação em atividades religiosas foi inserida nesse contexto mais amplo de fortalecimento de hábitos saudáveis, suporte emocional e manutenção de vínculos sociais e comunitários, aspectos que podem contribuir positivamente para o bem-estar de determinadas pessoas, de acordo com suas convicções e escolhas individuais.

Importante destacar que tal orientação não foi apresentada como tratamento médico, tampouco como substituição da terapêutica prescrita, mas como recomendação complementar inserida em um conjunto de medidas voltadas à promoção integral da saúde.

A Secretaria Municipal de Saúde reafirma seu compromisso com os princípios da ética profissional, da autonomia do paciente, da liberdade de crença e da laicidade do serviço público, não sendo admissível qualquer forma de imposição religiosa no âmbito da assistência prestada pela rede municipal.

Por fim, informa que o caso será avaliado pela área técnica competente para análise do contexto integral do atendimento e verificação da conformidade das orientações registradas com as diretrizes institucionais adotadas pela Secretaria Municipal de Saúde.

Posicionamento do Cremesp

O g1 procurou o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) para esclarecer quais são os limites legais e éticos desse tipo de conduta e se há investigação em curso contra o médico citado. Até a última atualização desta reportagem, o conselho não havia retornado o contato.





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