sexta-feira, 19, junho , 2026 02:47

No livro 'Sub/Emerso', obra de Bob Wolfenson surge ressignificada

Rios transbordam. É da natureza. Antes da ocupação sem planejamento da cidade de São Paulo, os rios Pinheiros e Tietê eram curvos e suas margens, formadas por extensas várzeas, acomodavam o excesso de água resultante das chuvas. No decorrer de décadas, eles foram retificados, suas margens, ocupadas desordenadamente, e o solo, impermeabilizado. O ciclo de cheia e vazante não foi respeitado. Soma-se a isso o inegável aquecimento global e as mudanças climáticas. O resultado são as grandes enchentes.

Tragédias causadas por inundações trazem sofrimento e perdas. Paradoxalmente, a que atingiu 80% do estúdio e acervo de Bob Wolfenson, há seis anos, na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo —até então a maior em 77 anos—, lhe trouxe inspiração.

O que aparentava ser a destruição total de décadas de um primoroso trabalho, apresentou-se como algo novo e surreal. Surgiram formas e relevos que pediam uma releitura: “Não! Isso está bonito! Tem um lance aí”, disse Wolfenson, diante da escolha entre o descarte ou a ressurreição artística.

Resgatado das profundezas do estúdio inundado, manchado de água e lama, ressuscitou em outra dimensão. Em vez de desespero, o evento trouxe reflexão e releitura, que só o talento e o olhar criativo e resiliente do autor conseguiriam realizar. Um outro Bob Wolfenson emergia daquele desastre. Como ele mesmo diz, “foi um efeito físico, sobre um material físico, criou-se, então, uma nova materialidade”.

Esse material já havia sido reunido em um livro mais enxuto, em 2020, antes de ser destaque de uma exposição, em 2023. Agora, ele inspira outra publicação mais encorpada —”Sub/Emerso = Sub(E)merged”, pela Editora Senac São Paulo.

As obras atingidas eram analógicas, produzidas com filmes revelados e ampliados em papel, elementos perfeitos para ação da água e da lama, que acabaram por reeditar seu trabalho que parecia perdido. Novos grafismos e formas sobre as imagens icônicas de personagens de grande relevância de nossa cultura, trabalhos publicitários e editoriais de moda foram sendo descobertos. Belas e inusitadas imagens emergiam do caos. Paciência, talento e freezers ajudaram nesse minucioso processo.

Por orientação de Sergio Burgi, do Instituto Moreira Salles, especialista em conservação e restauro, as fotografias foram congeladas para retardar a deterioração até que pudessem ser, com paciência e zelo, recuperadas.

O roteiro para a recuperação do acervo parecia estar pronto, não fosse outro percalço —a pandemia, que retardou a emersão total da obra por mais alguns anos. Parte dele, inclusive, ainda repousa em freezers, congelado, aguardando para ser revisitado e, quem sabe, possa vir ainda mais um livro.

As transformações em algumas imagens foram profundas, alterando formas, cores e relevos, como os retratos de Caetano Veloso, de 1988, que renasceram com ondulações que lembram o mar, ou de Oscar Niemeyer, cujo retrato de 1995 parece renascer do fogo, e não da água.

Fernanda Torres, retratada em 1994, parece prever, com certa apreensão, a recriação que sua imagem teria 26 anos depois. Polaroides de editoriais de moda de 2004 parecem ter passado por um túnel do tempo, transformando-se em algo como daguerreótipos do século 19.

Wolfenson contextualiza seu livro trazendo imagens da “cena do crime”, como ele mesmo define, com fotos dos estragos causados por essa segunda inundação. A primeira aconteceu em 2005. A imagem do fundo infinito, ainda pintado em degradê azul, contrastando com o piso coberto de lama e marcado por marcas de sapato —possivelmente do próprio Wolfenson explorando o novo terreno em que se transformara seu estúdio—, remete às pegadas de Neil Armstrong sobre a Lua. Tanto lá como cá, ambos são passos para a eternidade.

O que tinha tudo para ser uma tragédia pessoal e profissional, Wolfenson, em meio ao caos, transformou perda em criação, dor em inspiração e lamento em resignificação. Reeditou sua obra, agora manchada de água e lama, e nos presenteou com novas fotografias e novas leituras, desta vez, porém, em uma inusitada coautoria com são Pedro.

noticia por : UOL