O Reino Unido está quebrando vários recordes com a renúncia de Keir Starmer da liderança do Partido Trabalhista e sua iminente saída do cargo de primeiro-ministro. Starmer anunciou a decisão na segunda-feira (22) de junho. Ele permanecerá no cargo como premiê até a eleição do próximo líder do partido — portanto, se não houver imprevistos, até meados de julho.
Starmer venceu as eleições de 2024 com a segunda maior maioria desde a Segunda Guerra Mundial, conquistando 411 deputados na Câmara dos Comuns contra 121 conservadores e 72 liberal-democratas. Uma maioria blindada, em suma, que não foi suficiente para fazê-lo superar o segundo ano de governo. Trata-se — e este também é um recorde — do primeiro premiê trabalhista a renunciar durante o seu primeiro mandato. E é (terceiro recorde na história britânica do pós-guerra) o sexto governo em sete anos. Estamos, portanto, testemunhando o pior período de instabilidade política.
O motivo imediato da renúncia de Starmer é a rebelião de seu próprio partido assim que surgiu uma primeira alternativa atraente. O premiê em exercício estava determinado a cumprir o mandato até o fim, apesar da derrota acachapante sofrida nas eleições municipais de maio, amplamente vencidas pelo partido Reform, a nova criação do conservador Nigel Farage (o pai ideológico do Brexit). Se em maio a pressão para que renunciasse já era forte — com demissões de ministros e a revolta de metade dos parlamentares da maioria —, Starmer ao menos podia se apoiar no fato de que não havia uma figura forte de referência em sua oposição interna capaz de substituí-lo. Hoje, essa alternativa existe: o prefeito da Grande Manchester (a área metropolitana de Manchester, a segunda maior cidade da Inglaterra depois de Londres), Andy Burnham.
Sem mandato no Parlamento desde 2017 e derrotado duas vezes nas eleições internas para a liderança do Partido Trabalhista, Burnham, pelo menos até poucos meses atrás, parecia ser o nome menos provável entre os sucessores cotados de Starmer. Tudo mudou após as desastrosas eleições de maio, quando o Partido Trabalhista viu suas intenções de voto caírem pela metade em comparação com o que havia conquistado em 2024. E Burnham, nas eleições suplementares de 18 de junho no distrito de Makerfield (Manchester), derrotou por ampla margem Robert Kenyon, do Reform, com 54,8% dos votos contra 34,5%. Com isso, ele se tornou o homem “capaz de derrotar o Reform“.
Nos dias seguintes à sua vitória, o apoio a Starmer derreteu ainda mais, a rebelião de seus ministres e parlamentares aumentou, até que o próprio premiê decidiu, por conta própria, sair de cena. Seu discurso foi melancólico:
“A pergunta que o meu partido se faz agora é se eu sou a pessoa mais adequada para nos liderar rumo às próximas eleições gerais. Ouvi a resposta do meu grupo parlamentar a essa pergunta e a aceito de bom grado.”
Burnham não é apenas o prefeito de uma grande região metropolitana, mas também o portador de um novo “modelo” de governo que, pelo menos em Manchester, parece estar dando bons resultados econômicos. Ele é, antes de tudo, um descentralizador: quer dar às autoridades locais e às nações que compõem o Reino Unido muito mais poderes do que os obtidos até agora com a Devolution (descentralização político-administrativa). Além disso, é um defensor da intervenção estatal: não hesita em reestatizar o que Margaret Thatcher e seus sucessores privatizaram.
Contudo, esses órgãos públicos não seriam necessariamente administrados pelo governo nacional; dado o seu foco localista, seriam entregues aos governos regionais. Sua abordagem — um “socialismo pró-empresas”, como ele mesmo chama — prevê, de todo modo, um aumento de impostos e de gastos públicos. Alguns aspectos mais radicais de seu programa, como a concessão de uma “indenização” aos trabalhadores que viram sua idade de aposentadoria ser estendida, provavelmente foram descartados de vez. Mas sua política incluirá, inevitavelmente, a indexação das aposentadorias (ajustando-as à inflação) e um aumento nos gastos sociais e de saúde. O resultado será o aumento de impostos: os recursos são escassos, e Burnham promete manter, de qualquer forma, uma política de orçamento equilibrado.
Se é bastante fácil entender por que Burnham é o sucessor mais provável de Starmer, é muito mais difícil compreender as causas do desastre político provocado pelo atual premiê em apenas dois anos. Ele não perdeu uma guerra, não causou uma crise econômica profunda, nem foi vítima de eventos históricos como a Covid ou o Brexit — acontecimentos que já passaram e foram relativamente digeridos. Starmer foi vítima da mesma doença política que causou o fim prematuro de tantos de seus predecessores conservadores: Cameron, May, Johnson, Truss e Sunak. Nenhum deles, exceto Sunak, foi rejeitado diretamente pelo eleitorado em eleições gerais. Foram vítimas de seus próprios partidos, bombardeados pelo medo de que suas lideranças não estivessem à altura das eleições seguintes, após o colapso de popularidade medido por pesquisas e eleições municipais.
O Brexit, na verdade, é um grande sintoma, não a causa da instabilidade. A causa é a falta de sintonia de visões entre o eleitorado e a classe política eleita.
É muito cômodo afirmar (como faz grande parte dos analistas da União Europeia) que essa extrema volatilidade é causada pelo Brexit. O Brexit, na verdade, é um grande sintoma, não a causa da instabilidade. A causa é a falta de sintonia de visões entre o eleitorado e a classe política eleita. Os governos que se sucederam de Cameron em diante, fossem conservadores ou trabalhistas, não souberam interpretar a vontade de seus eleitores. A vontade da maioria, pelo menos desde 2016, é bastante evidente: está em curso uma revolta contra a globalização, especialmente contra seus aspectos mais dramáticos, como a imigração ilegal e o choque com culturas que não se integram ao tecido social britânico. Uma revolta à qual a esquerda responde com uma reação igualmente revolucionária, espelhada e oposta: um multiculturalismo extremo que condena o Ocidente e o próprio passado britânico como a raiz de todos os males sociais.
Certamente, a falta de integração é um fator importante. Sob o governo de Starmer, veio à tona a dimensão assustadora da violência sexual sofrida por jovens do proletariado urbano inglês (a classe normalmente representada pelos trabalhistas) cometida por gangues de estupradores e exploradores imigrantes, em sua maioria muçulmanos paquistaneses: estima-se até 250 mil vítimas, caso que foi abafado por uma polícia que temia acusações de racismo.
A gota d’água foi o caso do assassinato do estudante Henry Nowak, no qual, pelo mesmo temor, a polícia quase se tornou cúmplice do homicida (um indiano sikh), ao não acreditar na vítima e algemá-la mesmo enquanto ela estava morrendo. Sob Starmer, logo nos primeiros meses, estourou a violência étnica entre o proletariado urbano e a classe média britânica (todos potenciais eleitores do Trabalhismo) e os imigrantes, após atos atrozes de violência — o mais recente sendo a tentativa de decapitação de um irlandês em Belfast. E a resposta do premiê foi: não protestem (mão de ferro contra os manifestantes anti-imigração) e nem sequer falem sobre isso. Pelo contrário, pune-se severamente qualquer um que toque no assunto, mesmo cidadãos comuns: uma única publicação nas redes sociais, ou um simples compartilhamento de vídeos dos confrontos étnicos, pode resultar em uma batida policial na residência e em um processo judicial.
Com Starmer, as leis de “discurso de ódio” atingiram níveis orwellianos. Isso certamente contribuiu para torná-lo impopular entre os eleitores moderados e indecisos, mas também dentro do próprio eleitorado tradicional dos Trabalhistas.
Visto pela esquerda, por outro lado, Starmer desagradou os eleitores das classes mais instruídas e elitistas, especialmente nas cidades universitárias, ao promover uma política de imigração rígida, vista como uma continuidade da linha conservadora. Ele também afastou o crescente eleitorado islâmico ao apoiar substancialmente Israel, e pagou caro por esse apoio com a migração de votos para o Partido Verde, que acolheu muitos candidatos muçulmanos. Além disso, decepcionou a esquerda mais uma vez ao manter boas relações com Donald Trump, que retribuiu o gesto com uma série de humilhações públicas (o mesmo tipo de humilhação que Giorgia Meloni acaba de experimentar) e novas tarifas alfandegárias contra o Reino Unido.
De modo geral, como aponta a análise do The Guardian, referência da imprensa de esquerda, Starmer não soube se comunicar. Não criou uma “narrativa” própria, não soube indicar os objetivos a serem alcançados por seu governo. Desperdiçou uma supermaioria. Agora, resta ver se o seu sucessor será capaz de preservá-la.
© 2026 La Nuova Bussola Quotidiana. Publicado com permissão. Original em italiano: Starmer si dimette, il fallimento del multiculturalismo inglese.
noticia por : Gazeta do Povo



