O ex-presidente Evo Morales disse nesta terça-feira (23) que o governo da Bolívia está “forçando uma guerra civil” com uma “política neoliberal”. Morales foi entrevistado pela agência AFP na região do Chapare, onde está refugiado.
Várias cidades bolivianas enfrentaram nas últimas sete semanas uma escassez de alimentos, combustíveis e medicamentos devido a bloqueios de estradas em protesto contra o presidente de centro-direita Rodrigo Paz, enquanto o país vive sua pior crise econômica em quatro décadas.
Paz, que pôs fim em novembro passado a 20 anos de governos de esquerda, responsabiliza Evo Morales (2006-2019) pelos protestos e decretou no último sábado (20) estado de exceção, uma medida que permitiu a remoção dos bloqueios.
“Não vou me render“, afirmou Morales, dias após o governo ameaçar intervir no Chapare, reduto político do ex-presidente esquerdista, para prendê-lo. “Quem negocia a sua sobrevivência não é digno.”
A entrevista aconteceu na localidade de Lauca Eñe, após uma passagem por vários postos de controle. Dezenas de apoiadores do ex-presidente ficaram nos arredores de seu refúgio, alguns deles portando armas rústicas.
Morales é alvo de um mandado de prisão por um suposto caso de tráfico de menor, que ele nega e denuncia como “perseguição” política.
Qual é o seu balanço das últimas semanas de protestos?
É uma revolta contra o modelo neoliberal e o estado colonial. E o resultado é um governo sem autoridade. Na minha opinião, isso vai continuar. Essa “mentirocracia” causa muita reação do povo boliviano.
O fim dos bloqueios é uma vitória do governo?
O governo foi salvo por favores [a setores] negociados a portas fechadas. Só restavam bloqueios aqui no Trópico de Cochabamba, que tem muita disciplina. Decretamos uma pausa, mas não negociamos.
Acredita que o governo vá intervir no Chapare [reduto político da esquerda]?
Não há motivos para intervir; não há bloqueios. Sabem que haverá problemas aqui, estamos bem organizados. Sabem que companheiros vão se defender, vão nos defender. Não queremos mortos, feridos.
O que fará se tentar fazê-lo?
Com toda essa política neoliberal e esse estado colonial, estão forçando uma guerra civil. Quem negocia a sua sobrevivência não é digno. Eu nunca negociei. Defender a folha de coca é defender a soberania, a dignidade do povo.
A guerra da coca é muito mais do que a guerra por água ou gás. Qualquer intervenção militar, policial, [os camponeses] vão resistir.
Qual a sua resposta à acusação de suposto tráfico de menor?
Processo inventado. Não encontraram nada de narcotráfico, corrupção. É um tema puramente político. Como Evo não é corrupto nem está ligado ao tráfico de drogas, tentam usar o tema “pedófilo”. As pessoas acham graça.
O que prevê para a Bolívia nos próximos meses?
Se não for resolvida a questão estrutural, que é a questão econômica, a qualquer momento qualquer setor vai se mobilizar. Se não houver um plano para reativar a economia estatal, continuará havendo rebelião e agitação.
Apoia o pedido de renúncia do presidente Paz?
Esse pedido se propagou. Eu disse que talvez uma saída política constitucional seja convocar eleições. Mas nunca pedimos a renúncia.
A questão é evitar que se privatizem a luz, a água, as telecomunicações, os recursos naturais, a saúde, a educação. Este é o pedido.
noticia por : UOL



