terça-feira, 21, julho , 2026 06:24

Como a Copa do Mundo desmoralizou a política identitária

A Copa do Mundo testou o limite da paciência dos torcedores com os militantes da ideologia identitária de direita e de esquerda. À direita, foi desmoralizada a tese de que o sangue é o fator decisivo na identidade nacional. À esquerda, foi ridicularizada a tentativa de submeter o torcedor a um catecismo decolonial, antirracista e geopolítico. A paixão rompeu os cabrestos que tentaram lhe impor tanto os fiscais de pureza étnica quanto os patrulheiros da consciência.

A Espanha campeã ofereceu a imagem mais eloquente do fracasso da narrativa identitária de direita. Lamine Yamal e Nico Williams não foram selecionados em nome da diversidade nem celebrados por dever moral. São celebrados porque jogam demais, decidem partidas, fazem milhões de espanhóis felizes e tornam sua seleção admirada mundo afora. Do maravilhoso elenco da França, nem se fala. Tornaram-se todos, por mérito e afeto, símbolos nacionais.

O mesmo vale para Bukayo Saka na Inglaterra, Jamal Musiala na Alemanha e tantos jogadores negros, mestiços ou filhos de imigrantes nas seleções da Copa. Para uma criança que veste a camisa de Yamal ou tenta imitar o drible de Saka, a origem familiar do ídolo não diminui sua condição de espanhol ou inglês. Ao contrário, é por meio dele que a nação aparece em sua forma mais admirada: talentosa e vitoriosa.

Isso coloca a direita identitária diante de um dilema. Ou admite que a nacionalidade não depende de sangue, cor ou sobrenome, ou recusa seus maiores heróis do esporte mais amado e se revela mais racista do que patriótica. Vai se dar muito mal com a opinião pública quem escolher a segunda via, ao menos enquanto a memória coletiva da Copa perdurar.

Afinal, quem decide quem representa uma nação não é o fiscal de fenótipo, mas a convocação, a camisa vestida com brio e o reconhecimento dos torcedores do mundo todo. Para milhares de crianças no mundo inteiro, a França é Mbappé, a Inglaterra é Bellingham, a Espanha é Yamal, tanto quanto a Argentina e Messi são a mesma coisa.

No Brasil, contudo, quem mais se expôs ao deboche popular foi o identitarismo progressista. Colunistas e influenciadores da elite cultural vieram a público nos ensinar para quem seria moralmente lícito torcer. Torcer pela Argentina ou contra ela, por exemplo, deveria passar por um severo escrutínio moral que incluía o exame do racismo, do colonialismo, da relação com as populações originárias, com as Avós da Praça de Maio e com o feminismo latino-americano. Torcer por uma seleção dependia de uma prova oral diante de uma banca de estudos decoloniais e de um comitê de conformidade progressista.

Ao julgar país, governo, história, seleção, jogadores e torcida como se fossem um único réu num tribunal moral, a patrulha progressista apenas mostrou que só se sente confortável quando culpa, indignação, vitimização e raiva estão em jogo. A paixão solta, incoerente, divertida e até tola não é a sua praia. Decidiu, então, que, nessa festa, todos precisavam entender que a diversão deve pagar pedágio à militância moral e que marcar posição e defender bandeiras vêm antes do prazer.

Mas o torcedor comum enviou um recado claro de insubmissão ao recusar-se a consultar manuais de decolonialismo e departamentos de diversidade antes de comemorar um gol. Nas redes, explodiram gozações sobre a casuística moral para uma torcida correta e caricaturas da pedanteria dos colunistas que se arvoraram em ser “sommeliers de torcida” e “problematizadores de secação”.

Expôs-se o divórcio entre a elite cultural de esquerda e a alma popular. Os patrulheiros morais foram vistos pelo público não como os faróis éticos que pretendem ser, mas como os chatos que são. E toda causa está condenada de partida quando quem a sustenta é um chato, como se sabe.

Os identitarismos de direita e de esquerda não são equivalentes em seus efeitos. Um nega cidadania e ergue muros raciais dentro da nação. O outro patrulha afetos e converte escolhas banais —e deliberadamente irracionais— em testes de virtude. Mas os dois compartilham a mesma operação mental: dissolvem pessoas em identidades coletivas e distribuem culpas, méritos e obrigações segundo a pertença a grupos.

Um olha para Yamal e vê um marroquino disfarçado de espanhol. O outro olha para uma camisa e vê cinco séculos de colonialismo, racismo e misoginia. Nenhum consegue enxergar simplesmente que nem tudo é militância. Às vezes, um jogo de bola é só isso mesmo. E, quando a bola rola, a consciência do torcedor não dá a mínima para a patrulha moral do chato militante.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

noticia por : UOL