domingo, 2, agosto , 2026 03:34

Um cardeal, uma ministra do STF e uma deputada entram na Flip…

Era meio da tarde do primeiro dia da Flip quando Erika Hilton adentrou o restaurante com a típica imponência provocativa dos inseguros. Com mais duas pessoas, chamaram a atenção na medida certa para serem notados e ignorados. Conseguiram uma mesa no centro do lugar, o que achei politicamente irônico.

Ainda bem que eu já tinha almoçado, estava finalizando meu cafezinho. Fiquei a pensar no que havia escutado pela manhã. Em uma das mesas oficiais do evento, um cardeal poeta, de clergyman (o colarinho branco dos padres) e uma cruz de prata imensa sobre o peito, falou de como temos de estar atentos aos detalhes, ao que passa, “porque sempre Deus passa, isto é, sempre o mistério nos visita. Todos os dias acontece o mistério da anunciação”.

Seria possível alguma anunciação dessas através de Erika Hilton? Ou de Chico Alencar e Anielle Franco, outros dos políticos que vi por lá e, se mais estiveram, dei a sorte de não saber? Com a hiper politização da sociedade, não parece restar lugares e eventos que não estejam clara e fortemente demarcados ideologicamente. Como no meio editorial, jornalístico, universitário, há uma quase unanimidade progressista, em geral esquerdista (não, não são a mesma coisa), a presença desses políticos apenas confirmava o viés esperado da Flip, a maior festa literária do país.

Bastava uma passada de olhos pela programação oficial para se constatar que não havia mistério no que já estava anunciado. A “extrema direita” seria objeto de pseudo-análise e desprezo sincero, como de fato foi. Já era favas contadas que até a pergunta singela sobre o que isso teria a ver com literatura — mais ainda com a homenageada do festival, Orides Fontela, cuja poesia metafísica nunca se rebaixou ao comezinho político do momento —, perderia o sentido de ser formulada, afinal, o que não foi engolido pela politização da vida?