Nos últimos anos, governos do Ocidente vêm discutindo a destruição de estátuas e outros monumentos de figuras associadas à escravidão e ao colonialismo. Porém, neste exato momento, um grupo de escultores franceses está fazendo justamente o contrário.
Conhecido como Atelier Missor, o coletivo surgido na cidade de Nice está erguendo uma estátua de bronze de 15 metros do titã Prometeu, personagem da mitologia grega que roubou o fogo dos deuses para entregá-lo à humanidade.
Prometeu é uma espécie de figura fundadora da tradição ocidental. Seu mito coloca o conhecimento, a técnica e o progresso como frutos de uma ousadia. A partir daí, cabe à humanidade seguir e avançando.
Mas há um detalhe curioso sobre a obra: ela fica no Texas, mais especificamente num terreno ao lado da Starbase, a base de lançamento de foguetes da SpaceX — um dos maiores empreendimentos privados de exploração espacial, fundado por Elon Musk.
A escultura, no entanto, não foi encomendada por Musk. Ela é uma iniciativa independente do Atelier Missor, concebida como uma espécie de presente simbólico à Starbase.
Na verdade, a aproximação entre as duas partes começou de forma despretensiosa. Elon Musk apenas comentou “Looks cool” (“Parece legal”) em um post do ateliê sobre outro projeto — uma nova Estátua da Liberdade, em titânio, que os franceses planejam erguer também nos EUA.
Foi o suficiente para o grupo ganhar visibilidade mundial e financiamento de grandes investidores americanos. Segundo a imprensa que acompanha a construção, o custo estimado do Prometeu texano é de cerca de US$ 1 milhão.
O trabalho do atelier, porém, está longe de ser unanimidade. Suas ideias sobre a arte e sua defesa explícita da cultura ocidental costumam render críticas duras no ambiente acadêmico, além de controvérsias com o poder público.
Desprezo pela arte contemporânea
“Símbolos são poder. Eles não são apenas decoração, mas também instrumentos de memória e âncoras de identidade”, afirma Missagh “Missor” Nouri, artista autodidata de origem iraniana e criador do ateliê (ao lado do irmão, Massoud, um cientista da computação).
Para Missor, de 35 anos, esculpir é “um ato civilizacional”. Principalmente porque, segundo ele, a arte contemporânea virou “uma missão para insultar o Ocidente”: em vez de celebrar sua história, heróis e valores, os artistas de hoje preferem questionar e até ridicularizar essa herança.
Esse desprezo também ajuda a entender a maneira como ele reage aos críticos. “Nossos inimigos quase conseguiram testemunhar a nossa morte”, diz Missor, referindo-se à maior crise enfrentada pelo grupo.
Em 2023, a cidade de Nice, então comandada pelo prefeito de direita Christian Estrosi, encomendou ao ateliê uma estátua de Joana d’Arc, com nove toneladas, por 170 mil euros. Na inauguração, no final de 2024, o político comemorou: “Esta obra permanecerá nas memórias e nos livros como um exemplo”.
No entanto, em janeiro do ano seguinte, um tribunal derrubou a decisão por falta de concorrência pública. Meses depois, a Justiça voltou atrás — reconheceu a irregularidade, porém entendeu que a falta de licitação não era grave o bastante para desfazer o negócio. Ainda assim, Missor e seu irmão perderam várias outras oportunidades de trabalho e quase foram à falência.
“Machosfera anti-woke”
As críticas ao ateliê também são ideológicas e artísticas. A revista americana The New Republic, por exemplo, afirmou que os irmãos fazem parte da “machosfera anti-woke” (e isso não foi um elogio). Já o jornal Politis viu no grupo “um instrumento de promoção para a direita e a extrema-direita”.
No meio acadêmico, especialistas costumam questionar se Missor é realmente um artista ou apenas um fenômeno de marketing. O historiador Paul-Louis Rinuy, da Universidade Paris 8, foi mais longe: comparou o estilo do ateliê ao de Arno Breker, escultor do Terceiro Reich.
“É uma imitação boba e não inventiva do passado”, completou Rinuy, ao comentar a obra dos irmãos (que inclui esculturas de Nietzsche, Marco Aurélio, Dostoiévski, Victor Hugo, Chopin e até do intelectual contemporâneo Jordan Peterson).
Mas essa mistura de estética retrô, discurso sobre a civilização e habilidade nas redes chamou a atenção do setor da tecnologia dos EUA. Além do “afago” de Elon Musk, o Atelier Missor já recebeu dinheiro de fundos de investimento como o Founders, Inc. e o 1517 Fund (este último ligado ao bilionário Peter Thiel).
O interesse vai além das estátuas. Para esses mecenas, as obras dos irmãos franceses representam tradição, inovação, ambição e, acima de tudo, uma tentativa de transformar o resgate da cultura ocidental em um projeto de longo prazo.
A chamada “nova Estátua da Liberdade”, ainda sem endereço definido, resume bem a proposta do atelier. “Ela será muito maior, mais masculina e feita de titânio. Para durar milhões de anos”, garante Missor.
noticia por : Gazeta do Povo



