quinta-feira, 1, outubro , 2026 04:06

Anúncios que prometem delivery rápido são alvo de queixa no Conar


São Paulo


A cicloativista e vereadora Renata Falzoni (PSB-SP) pediu ao Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) a suspensão das propagandas de aplicativos que prometem entregar produtos ao cliente em poucos minutos após a compra.

No documento, encaminhado nesta quarta-feira (30), ela afirma que as campanhas publicitárias estimulam a alta velocidade e, consequentemente, aumentam os riscos dos entregadores no trânsito.

Falzoni cita lei federal que veda a empresas e tomadores de serviços prestados por motociclistas a adoção de práticas que estimulem o aumento de velocidade.

Entre as práticas proibidas estão a oferta de prêmio por metas de entrega, promoção de competição entre motociclistas e promessas de dispensa do pagamento ao consumidor se o produto ou serviço não for entregue no prazo oferecido.

Centenas de motociclistas com capacetes ocupam várias faixas de uma avenida urbana. Um motociclista no centro usa capacete com estampa de palhaço e jaqueta vermelha. Luzes de veículos e árvores aparecem ao fundo em dia nublado.

Entregadores por aplicativo protestam contra as taxas pagas pelas empresas 99 Food, iFood e Keeta

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Danilo Verpa – 1º.set.26/Folhapress

“Expressões como ’15 minutos’, ou ‘entrega mais rápida’ não aparecem apenas como informações operacionais, mas como argumentos de venda”, afirma Falzoni no texto encaminhado ao Conar. E acrescenta: “Mas o prazo anunciado precisa ser cumprido no trânsito real, com congestionamentos, chuvas, obras, semáforos, pedestres e outras circunstâncias que exigem, muitas vezes, redução de velocidade”.

A crítica ao conteúdo dessas campanhas encontra eco entre os entregadores.

Segundo JR Freitas, do Movimento dos Trabalhadores sem Direitos, “é uma falta de responsabilidade uma gigante como a Keeta, ou a 99, prometer que vai entregar alguma coisa em um certo horário”.

“Como é que eles garantem isso, se quando o cliente faz o pedido já começa a valer essa meia hora, mas a empresa não considera se o restaurante atrasa, ou se tem 30 motoboys na frente dele no mesmo local na hora de pico das demandas?”, disse JR.

Ele diz que, para incentivar o entregador a cumprir o horário prometido, as empresas oferecem alguns reais a mais na corrida.

“O trabalhador já é pressionado pelos algoritmos e pela precarização do serviço, e com esses R$ 3 ou R$ 4 a mais ele está sendo incentivado a correr, a se arriscar, não porque gosta, mas porque precisa”, afirma.

Procuradas, a Keeta e a 99 afirmaram que a segurança dos entregadores, aos quais chamam de parceiros, é uma prioridade.

Gringo Motoka, como é conhecido o presidente da Amabr, associação dos motofretistas de aplicativos, concorda com JR Freitas.

“É sabido que atrasos nas entregas prejudicam métricas de avaliação dos entregadores pelas plataformas, o que afeta seus ganhos e condiciona o trabalhador a colocar a própria vida em risco para garantir a meta no final do dia”, diz.

“Quando a isso se somam as jornadas extensas, temos a receita de uma tragédia que assola não só a categoria, mas toda a sociedade”, acrescenta.

A Ketta disse em nota à reportagem que investe em tecnologia de ponta para garantir uma operação mais segura. A empresa citou, entre as iniciativas tomadas, “sistemas proprietários e algoritmos de inteligência artificial capazes de otimizar jornadas, reduzir tempos de espera e aumentar o volume de entregas sem sobrecarregar os parceiros”.

Já a 99, também em nota, informou que “o tempo médio de 29 minutos é um indicador da operação para pedidos realizados em um raio de até 5 km e não representa meta individual de tempo ou velocidade para os entregadores parceiros”.

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Segundo os entregadores, na prática essa “teoria dos 5 quilômetros” não se verifica.

“Não é verdade”, diz Gringo Motoka. “Temos comprovação de que o cálculo de distância das empresas é subdimensionado, em razão de relevo, sentido de circulação ou desatualização dos mapas”, aponta.

Ele acrescenta que, mesmo que se admita o cálculo, nem o próprio trabalhador pode determinar com precisão o tempo de duração de uma viagem. “O trânsito é sujeito a alterações bruscas, sinalização, fatores imprevisíveis, como as plataformas teriam o condão de antecipar esses cenários?”, questiona.

Consultado pela reportagem, o Conar informou, por meio de sua assessoria, que a decisão sobre a abertura do processo que analisaria a queixa deve levar cerca de uma semana. Se aceita, a discussão no Conselho de Ética leva em média 40 dias.

noticia por : UOL