São Paulo
A cicloativista e vereadora Renata Falzoni (PSB-SP) pediu ao Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) a suspensão das propagandas de aplicativos que prometem entregar produtos ao cliente em poucos minutos após a compra.
No documento, encaminhado nesta quarta-feira (30), ela afirma que as campanhas publicitárias estimulam a alta velocidade e, consequentemente, aumentam os riscos dos entregadores no trânsito.
Falzoni cita lei federal que veda a empresas e tomadores de serviços prestados por motociclistas a adoção de práticas que estimulem o aumento de velocidade.
Entre as práticas proibidas estão a oferta de prêmio por metas de entrega, promoção de competição entre motociclistas e promessas de dispensa do pagamento ao consumidor se o produto ou serviço não for entregue no prazo oferecido.

Entregadores por aplicativo protestam contra as taxas pagas pelas empresas 99 Food, iFood e Keeta
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Danilo Verpa – 1º.set.26/Folhapress
“Expressões como ’15 minutos’, ou ‘entrega mais rápida’ não aparecem apenas como informações operacionais, mas como argumentos de venda”, afirma Falzoni no texto encaminhado ao Conar. E acrescenta: “Mas o prazo anunciado precisa ser cumprido no trânsito real, com congestionamentos, chuvas, obras, semáforos, pedestres e outras circunstâncias que exigem, muitas vezes, redução de velocidade”.
A crítica ao conteúdo dessas campanhas encontra eco entre os entregadores.
Segundo JR Freitas, do Movimento dos Trabalhadores sem Direitos, “é uma falta de responsabilidade uma gigante como a Keeta, ou a 99, prometer que vai entregar alguma coisa em um certo horário”.
“Como é que eles garantem isso, se quando o cliente faz o pedido já começa a valer essa meia hora, mas a empresa não considera se o restaurante atrasa, ou se tem 30 motoboys na frente dele no mesmo local na hora de pico das demandas?”, disse JR.
Ele diz que, para incentivar o entregador a cumprir o horário prometido, as empresas oferecem alguns reais a mais na corrida.
“O trabalhador já é pressionado pelos algoritmos e pela precarização do serviço, e com esses R$ 3 ou R$ 4 a mais ele está sendo incentivado a correr, a se arriscar, não porque gosta, mas porque precisa”, afirma.
Procuradas, a Keeta e a 99 afirmaram que a segurança dos entregadores, aos quais chamam de parceiros, é uma prioridade.
Gringo Motoka, como é conhecido o presidente da Amabr, associação dos motofretistas de aplicativos, concorda com JR Freitas.
“É sabido que atrasos nas entregas prejudicam métricas de avaliação dos entregadores pelas plataformas, o que afeta seus ganhos e condiciona o trabalhador a colocar a própria vida em risco para garantir a meta no final do dia”, diz.
“Quando a isso se somam as jornadas extensas, temos a receita de uma tragédia que assola não só a categoria, mas toda a sociedade”, acrescenta.
A Ketta disse em nota à reportagem que investe em tecnologia de ponta para garantir uma operação mais segura. A empresa citou, entre as iniciativas tomadas, “sistemas proprietários e algoritmos de inteligência artificial capazes de otimizar jornadas, reduzir tempos de espera e aumentar o volume de entregas sem sobrecarregar os parceiros”.
Já a 99, também em nota, informou que “o tempo médio de 29 minutos é um indicador da operação para pedidos realizados em um raio de até 5 km e não representa meta individual de tempo ou velocidade para os entregadores parceiros”.
Segundo os entregadores, na prática essa “teoria dos 5 quilômetros” não se verifica.
“Não é verdade”, diz Gringo Motoka. “Temos comprovação de que o cálculo de distância das empresas é subdimensionado, em razão de relevo, sentido de circulação ou desatualização dos mapas”, aponta.
Ele acrescenta que, mesmo que se admita o cálculo, nem o próprio trabalhador pode determinar com precisão o tempo de duração de uma viagem. “O trânsito é sujeito a alterações bruscas, sinalização, fatores imprevisíveis, como as plataformas teriam o condão de antecipar esses cenários?”, questiona.
Consultado pela reportagem, o Conar informou, por meio de sua assessoria, que a decisão sobre a abertura do processo que analisaria a queixa deve levar cerca de uma semana. Se aceita, a discussão no Conselho de Ética leva em média 40 dias.
noticia por : UOL



