Eles usam adereços, pintam o rosto e balançam seus chocalhos para marcar território — ou melhor, para conseguir votos. As eleições de domingo (2) chegam com um número recorde de candidaturas indígenas: 191 em todo o Brasil, segundo o TSE.
Mas nem todos esses concorrentes se enquadram na chamada “Bancada do Cocar”, grupo criado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasi (Apib), a principal entidade nacional do movimento. Apenas 56 candidatos são apoiados pela organização, que tem como principais “cacicas” as deputadas federais Célia Xakriabá e Sônia Guajajara (ambas do PSOL).
Para a Apib, é como se os outros 135 concorrentes não existissem. A entidade só reconhece nomes indicados pelas bases do movimento e que defendem sua agenda. Não basta, portanto, apenas se declarar indígena. Para entrar na Bancada do Cocar, é preciso abraçar o projeto político da Apib.
A autodeclaração não serve apenas para fins estatísticos. Quem se diz descendente dos “povos originários” ganha uma fatia dos recursos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário. O mesmo vale para o horário eleitoral gratuito: se 10% das candidaturas de um partido forem indígenas, esss parcela do tempo de rádio e TV deve ser reservado a elas.
Com dinheiro público em jogo, a Apib tentou fechar a oca para as outras tribos. E foi ao TSE pedir que a autodeclaração não bastasse para garantir o acesso.
Além de se considerar indígena, o candidato teria de apresentar um documento assinado por lideranças locais (quase todas alinhadas à própria entidade) confirmando que ele pertence àquela comunidade e segue seus costumes e tradições.
Ou seja: seria preciso ter a benção de um movimento social para entrar na categoria de “indígena de verdade”.
O TSE não comprou a ideia e manteve a autodeclaração como regra. Derrotada no tribunal, a Apib fez sua própria seleção na marra. Os nomes escolhidos pela entidade carregam uma forte preferência ideológica, e não é difícil descobrir qual: pela esquerda.
PT e PSOL na frente
A imensa maioria dos 56 nomes escolhidos pela Apib está filiada a partidos do campo progressista (sobretudo PT, PSOL, Rede e PSB). Na relação divulgada pela própria entidade, 40 estão nessas quatro legendas: 17 no PT, 10 no PSOL, nove na Rede e quatro no PSB.
A lista ainda inclui concorrentes do PDT, PV, PCdoB e PCO (um de cada partido). As 11 candidaturas restantes estão distribuídas entre MDB (cinco), Avante (duas), PSD, Solidariedade e Agir (uma de cada). A conta, na verdade, chega a 55 — um a menos que as 56 candidaturas anunciadas pela organização.
A Apib, no entanto, garante ser suprapartidária. Sônia Guajajara, que deixou o cargo de ministra dos Povos Indígenas do governo Lula para disputar uma vaga na Câmara por São Paulo, é uma das porta-vozes da entidade que mais faz questão de destacar essa condição.
“Infelizmente, a gente não consegue ainda lançar nossas candidaturas pelo nosso movimento. Nós temos que estar nos partidos. Mas a nossa luta é maior que qualquer partido”, disse Sônia durante um encontro de mulheres representantes de diferentes povos em Brasília, em agosto do ano passado.
Reféns do Estado
Não há, portanto, candidatos da Apib em legendas de direita ou de centro como PL, PP, Republicanos, União Brasil ou Novo. A divisão, porém, é bem mais profunda, e vai além da questão partidária — especialmente no Congresso Nacional.
De um lado, está a Bancada do Cocar articulada pela entidade. Do outro, parlamentares indígenas da oposição que não se veem representados por esse projeto. Mas ninguém deixou esse contraste tão evidente quanto Silvia Waiãpi.
Primeira mulher indígena a se tornar oficial do Exército Brasileiro, ela foi secretária especial de Saúde Indígena no governo de Jair Bolsonaro e se elegeu deputada federal pelo PL do Amapá em 2022.
Silvia deixou a Câmara em julho de 2025, depois que a Justiça Eleitoral recalculou a distribuição das vagas e concluiu que ela não tinha votos suficientes para permanecer no cargo.
Em abril deste ano, no entanto, o TSE manteve a cassação do mandato por outro motivo: o uso de R$ 9 mil do Fundo Eleitoral para pagar uma harmonização facial durante a campanha de 2022. Com isso, Silvia ficou inelegível por oito anos e não pode disputar as eleições deste domingo (4).
Mas a rixa entre Silvia Waiãpi e as principais lideranças da Apib é anterior às decisões judiciais. Defensora da integração econômica dos indígenas à sociedade, a ex-deputada critica o que considera uma política que mantém as comunidades reféns do Estado.
Em entrevista à Gazeta do Povo, em 2024, ela resumiu sua posição ao comparar sua trajetória com a de figuras como Sônia Guajajara e Célia Xakriabá. “Ao contrário delas, que são apoiadoras do Lula e continuam com o discurso de manter o seu povo isolado, segregado e dependente, eu tenho o discurso de que o meu povo pode ter tudo aquilo que eu tenho”, disse.
Ela completou: “Sou uma indígena com formação em relações exteriores e defesa química, biológica, radiológica e nuclear. Sou da saúde, fui pesquisadora, sou formada em transporte aeromédico. E por que os meus irmãos e os meus pais ou os meus parentes não podem?”.
“Não existe agroíndigena!”
Essa postura ajuda a explicar por que Silvia e tornou uma pedra no sapato da Apib.
“A gente não pode contar com a Silvia Waiãpi como uma representação da nossa bancada. Ela é uma indígena assumidamente bolsonarista. E, se defende Bolsonaro, não defende as pautas coletivas dos povos indígenas”, afirmou Sônia Guajajara em uma sabatina para o jornal Folha de S.Paulo, em 2022.
Célia Xakriabá, candidata à reeleição em Minas Gerais, também demarcou essa fronteira ao criticar políticos indígenas favoráveis à aproximação com o agronegócio — uma alfinetada em Silvia Waiãpi e no grupo que passou a ser chamado de “agroindígena”.
“Não basta eleger mulheres indígenas. Porque nós não queremos mais pessoas que usam a identidade indígena para chegar no Congresso Nacional e tentar nos dividir. Não existe agroindígena!”, disse Célia, em 2025, durante um congresso da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade, ligada à Apib.
“Corpo-território”
Além de querer apitar sobre quem pode ou não falar em nome dos indígenas, a Bancada do Cocar trabalha para levar ao Congresso uma agenda típica da esquerda brasileira. A diferença está no jeito de empacotar o discurso.
Em vez do vocabulário marxista ou sociológico tradicional, as parlamentares apelam para conceitos baseados na visão de mundo indígena — como “aldear o Brasil”, “reflorestar mentes”, “bem viver”, “ecocídio” e “Mãe Terra”.
A ideia de “corpo-território”, por exemplo, junta a liberdade feminina à proteção da terra. O raciocínio é que, assim como um povo deve ter o direito de decidir o que acontece em seu território, a mulher também possui autonomia sobre o próprio corpo.
A partir dessa associação, pautas como o aborto deixam de ser interpretadas como escolhas individuais e passam a ser parte da defesa de toda a comunidade.
A mesma lógica se repete em diversas outras questões. A reforma agrária, a rejeição ao agronegócio e o combate à mineração entram numa narrativa de ancestralidade, “cura” da terra e combate ao “ecocídio”. Por outro lado, mais políticas públicas e financiamento estatal são ligados ao “bem viver” e à proteção dos povos.
Entre apelos à “Mãe Terra” e gritos de guerra para “aldear o país”, a Bancada do Cocar mostra que até seu cálculo eleitoral tem um fundo ancestral. O grupo demoniza os adversários, manobra para abocanhar mais recursos e reempacota velhas bandeiras para conquistar novos públicos. Por trás da pintura, a disputa em Brasília segue a mesmíssima lógica de sempre.
A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com Sônia Guajajara, Célia Xakriabá, Sílvia Waiãpi e a assessoria de comunicação da Apib para solicitar entrevistas, mas não obteve retorno até a conclusão deste texto.
noticia por : Gazeta do Povo




