segunda-feira, 5, outubro , 2026 05:45

Como foram as horas que antecederam a Batalha da Inajar de Souza, que terá julgamento nesta segunda

A Batalha da Inajar de Souza, briga entre corintianos e palmeirenses que marcou a violência entre torcidas em São Paulo e terminou com a morte de dois palmeirenses em 2012, foi planejada por integrantes dos Gaviões da Fiel para que nada saísse errado, diz a investigação da Polícia Civil.

André Alves Lezo, 21, e Guilherme Vinicius Jovanelli Moreira, 19, o Zulu, morreram devido a traumatismos cranianos decorrentes da briga. Lezo, que morava perto da avenida na Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo, morreu no mesmo dia. Guilherme, que morava na zona leste, morreu dois dias depois.

Dez acusados começam a ser julgados nesta segunda-feira (5) sob acusação de homicídio. Eles negam o crime.

Serão julgados:

  • Antonio Alan Souza Silva, 48, o Donizete, então presidente dos Gaviões da Fiel;
  • Mario Batista, 46, o Magoo;
  • Reinaldo Gilberto Alves, 48, o Ade;
  • Carlos Roberto de Britto Junior, 43, o Neguinho;
  • Douglas de Deungaro, o Metaleiro;
  • Rodrigo Reinaldet Daher, 48, o Capetinha;
  • Rodrigo de Azevedo Lopes Fonseca, o Diguinho;
  • Marcelo Eduardo Rodrigues Sales, 46, o Ninja;
  • Wagner da Costa, 43, o BO;
  • Mario José Carneiro Pieroni, 38.

Depoimentos de duas testemunhas protegidas serviram de alicerce para o relatório final da apuração. Para a Polícia Civil, o que desencadeou a briga foi a morte de Douglas Karin da Silva, 27, o DKS, cujo corpo foi encontrado no rio Tietê seis meses antes, após uma briga entre as torcidas.

Reunião na noite anterior

Na noite de sábado, 24 de março de 2012, torcedores corintianos passaram a se reunir em diversos bairros, alguns deles atraídos por ingressos para o clássico que seria disputado na tarde seguinte no estádio do Pacaembu, na zona oeste.

Os homens foram se amontoando em ônibus alugados. Um deles, segundo o proprietário, foi contratado sob o argumento de que serviria para o transporte até uma festa. Conforme os relatos no processo, os veículos foram pegando passageiros em vários bairros da capital.

O destino foi um snooker bar no Jardim Monte Kemel, na zona oeste. Os celulares foram recolhidos na entrada. O grupo permaneceu ali entre 3h e 9h de domingo, 25 de março.

Segundo a testemunha protegida identificada como Letônia no processo, um homem não identificado subiu em uma das mesas de sinuca e disse: “Todo mundo aqui, hoje a gente vai pegar o Lezo e vingar a morte do nosso irmão, vamos pegar os porcos. Não é pra ninguém correr, vou fazer parte da linha de frente e é para todo mundo me empurrar”.

Em seguida, conforme o inquérito, toucas feitas com meias de seda, com buracos para os olhos, foram espalhadas sobre a mesa de bilhar. Cada um dos presentes devia pegar uma, como forma de esconder o rosto.

O grupo voltou aos ônibus. Já sabendo da possível briga, seguiu pela marginal em direção à avenida Inajar de Souza. As testemunhas que estavam nos ônibus disseram ter ouvido os apelidos de Donizete, Metaleiro, BO, Diguinho, Neguinho e Ninja como os de quem articulava a ação em diferentes pontos. As comunicações eram feitas por rádio Nextel, comum na época.

Houve a distribuição de fogos de artifício. Segundo a Polícia Civil, o material foi comprado na sexta-feira (23) por Carlos Roberto de Britto Junior. A investigação obteve uma nota da fornecedora na qual aparecem supostamente parte do nome e o apelido dele.

Britto Junior nega envolvimento. Um laudo grafotécnico do Instituto de Criminalística afastou a possibilidade de as letras na nota serem semelhantes às encaminhadas por ele para o exame.

Além dos fogos, quem desembarcava dos coletivos recebia barras de ferro e porretes de madeira, que estavam guardados em carros de apoio, narra o processo.

Os palmeirenses, que haviam se reunido na Inajar de Souza pela manhã, seguiam a pé em direção à sede da torcida, na rua Turiassu, escoltados por duas viaturas da Polícia Militar. Os ônibus com os corintianos fizeram a volta na avenida e os pegaram de costas. Quando ficaram frente a frente, houve cânticos dos dois lados. Em maior número, os corintianos passaram a espancar os palmeirenses.

A testemunha Letônia relatou ter travado ao ver a cena. Um grupo de palmeirenses o agrediu, e um deles ainda passou com uma moto por cima de suas costas. Fingiu-se de morto até ser socorrido por pedestres. Policiais o levaram para um hospital.

A outra testemunha, identificada como Canadá, conseguiu fugir durante a briga. A versão dela é semelhante à dada por Letônia em alguns pontos.

Testemunha chamou briga de ‘filme medieval’

Para o Ministério Público, não houve um massacre de palmeirenses, como se poderia esperar, mas uma “batalha”, uma vez que os alviverdes também estavam preparados para a briga, embora talvez não para uma de tamanha proporção e realizada pelas costas. Um grupo de nove palmeirenses responde a uma ação por associação criminosa relativa ao caso, ainda sem julgamento.

Um pedestre que prestou depoimento classificou a briga como um “filme medieval”.

A denúncia da promotora Claudia Ferreira Mc Dowell, de 26 de outubro de 2017, apontou a suposta ação de cada um dos réus na preparação e execução do confronto. A investigação, contudo, não identifica os responsáveis diretos pelos golpes que mataram André e Guilherme.

Antonio Donizete teria concorrido para a organização e a execução do confronto. Também teria oferecido apoio moral e logístico. Mario Magoo e Reinaldo Ade teriam sido responsáveis por abastecer os torcedores com barras de ferro e cabos de pás e enxadas.

Britto Junior teria sido responsável pela compra dos fogos de artifício usados e pela organização do deslocamento dos torcedores.

Douglas Deungar, Rodrigo Reinaldet Daher, Rodrigo de Azevedo Lopes Fonseca, Marcelo Eduardo Rodrigues Sales, Wagner da Costa, e Mario José Carneiro Pieroni teriam agido na organização e na execução da briga.

A defesa de Antonio Donizete, Mário Magoo e Reinaldo Ade disse à Folha que não comentaria o caso.

Procurados entre a quinta-feira (1º) e a sexta-feira (2), os demais defensores não responderam aos contatos feitos por mensagem, email e ligações em telefones fixos presentes no site da OAB.

A assessoria dos Gaviões disse na última semana que a instituição não irá se pronunciar. A reportagem procurou a presidência atual da Mancha Alvi Verde, que não respondeu às mensagens.

Um policial militar que trabalhou naquele dia e tem larga experiência com as torcidas organizadas disse que a Batalha da Inajar é uma cicatriz que nunca vai se apagar. Segundo ele, para uma das torcidas o episódio significa dor, tristeza e desejo de revanche; para a outra, um troféu.

noticia por : UOL