domingo, 11, outubro , 2026 06:53

Quem é o homem que, sozinho, retraduziu a Bíblia para o português

Quando começou a traduzir a Bíblia do grego para o português, o classicista Frederico Lourenço, professor da Universidade de Coimbra e tradutor da Ilíada e da Odisseia, previa dois finais possíveis para o trabalho. Ou se tornaria ateu, coisa que nunca tinha sido, ou voltaria à Igreja Católica, da qual se afastara em 1998. Quase dez anos e seis volumes depois, o trabalho o levou de volta à missa. Lourenço traduziu tudo sozinho, num mercado em que as Bíblias costumam sair de projetos coletivos, e usou como base do Antigo Testamento a versão grega lida pelos primeiros cristãos.

Em 2003, o jesuíta Johan Konings, coordenador da tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), contou cerca de vinte versões completas da Bíblia em uso corrente no país. Ele atribuiu a fartura a um hábito do catolicismo nacional, que nunca teve uma tradução padrão: o costume foi “cada editora ter a sua Bíblia”. A própria CNBB publicou uma tradução em 2001 e lançou outra, oficial, em 2018. A Sociedade Bíblica do Brasil apresentou em 2017 mais uma revisão do texto de João Ferreira de Almeida, do século XVII.

Quase todas essas Bíblias saem de comissões ligadas a igrejas. A Tradução Brasileira de 1917, a primeira feita no país, consumiu quinze anos de trabalho de um grupo de especialistas que teve Rui Barbosa entre os consultores. A de Lourenço tem um único tradutor e foi publicada por editoras comerciais, a Quetzal em Portugal e a Companhia das Letras no Brasil. Desde a introdução do primeiro volume, ela se apresenta como leitura sem propósito doutrinário ou confessional. O pesquisador Anderson de Oliveira Lima, que estudou a obra num pós-doutorado na USP, considerou esse perfil raro na história do livro e a chamou de “Bíblia laica”. O primeiro volume vendeu mais de 20 mil exemplares em Portugal em menos de seis meses, e o tradutor recebeu o Prêmio Pessoa de 2016.

A Bíblia que os primeiros cristãos liam

No Antigo Testamento, que católicos e protestantes traduzem a partir do hebraico, Lourenço preferiu a Septuaginta. Essa versão grega, feita por judeus de Alexandria a partir do século III a.C., serviu de Escritura às primeiras comunidades cristãs e é a fonte da maioria das citações do Antigo Testamento feitas no Novo. Ao jornal português Observador, ele afirmou que o cristianismo nasceu da Septuaginta e não da Bíblia hebraica, algo que, segundo ele, muita gente prefere ignorar.