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De local de tiro a santuário, arquipélago de Alcatrazes (SP) renasce dez anos após decreto

Em vez do barulho dos tiros, há o tamborilar de fragatas macho, com seus papos vermelhos inchados como balões prestes a estourar. Do outro lado de uma das ilhas de Alcatrazes, no meio da mata, o silêncio. Dez anos após um decreto, assinado em 2 de agosto de 2016, ter transformado uma área da Marinha em refúgio de vida silvestre, a recuperação ambiental do arquipélago, no litoral norte paulista, pode ser vista —e ouvida— por todos os lados.

A cerca de 40 km da costa de São Sebastião e Ilhabela, o arquipélago é formado por 13 ilhas e ilhotas em mais de 670 km² de área protegida. É apontado como um dos principais ambientes de biodiversidade marinha do Sudeste do país.

Ali vivem mais de 1.300 espécies. Aproximadamente cem delas estão ameaçadas de extinção.

O arquipélago possui o maior ninhal de fragatas do Atlântico Sul e funciona como área de alimentação, reprodução e descanso para mais de 10 mil aves marinhas.

Não é incomum navegar por ali ao lado de golfinhos, tubarões e até baleias.

O decreto assinado pelo ex-presidente Michel Temer (MDB), que criou o Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, transformou a região em unidade de conservação federal, submetendo a pesca e outras atividades a regras de proteção ambiental e fiscalização.

A criação do refúgio também permitiu organizar a visitação e ampliar as ações de pesquisa, monitoramento e conservação.

Há uma década, dezenas de barcos de pesca ficavam ancorados no arquipélago, afirma Daniel Lage, agente ambiental temporário do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) Alcatrazes. “A pressão sobre a área havia reduzido, principalmente, a fauna marinha, com impacto sobre peixes maiores e predadores como tubarões, cações e garoupas. Agora, esses animais começam a reaparecer.”

No dia 26 do mês passado, o biólogo acompanhou a Folha numa caminhada de cerca de uma hora, em trilha fechada, até a base do ICMBio, instalada no topo da ilha principal, também chamada de Alcatrazes, a quase 300 metros de altura. Foi uma rara autorização para uma equipe de reportagem fazer expedição no santuário ambiental.

A visitação ao arquipélago é autorizada a operadoras de turismo credenciadas, porém rigidamente controlada. Não é permitido desembarcar nas ilhas. O local tornou-se um dos melhores pontos de mergulho do litoral paulista —em 2024, um grupo nadou com aproximadamente cem tubarões em Alcatrazes.

“Quando a gente tem tubarão, é um bom sinal”, diz Lage. Segundo ele, a presença de grandes predadores indica que a cadeia alimentar está voltando.

Tubarões e outros peixes mais sensíveis começaram a reaparecer há três anos, de acordo com o biólogo. A recuperação, segundo ele, resulta de um processo que envolve fiscalização, autuações e, sobretudo, conscientização dos pescadores da região.

Mas é preciso ficar de olho. Pouco antes de a reportagem desembarcar na ilha principal, agentes do ICMBio flagraram um barco de pesca na região, que fugiu.

Em novembro do ano passado, fiscais apreenderam mais de 300 tubarões e outras espécies de peixes capturados por pescadores. Foram aplicados em torno de R$ 3 milhões em multas. O caso resultou em uma investigação da Polícia Federal.

Em 2025, houve a soma de quase R$ 3,4 milhões em multas, o maior valor da história para o arquipélago, segundo o ICMBio, exatamente por causa desse caso.

Os flagrantes voltaram a subir. Foram cinco em 2025, o maior número desde 2021, quando ocorreram 12.

Atualmente, afirma o órgão ambiental, o problema são pescadores profissionais, que operam à noite em barcos pequenos.

“A capacidade dessas embarcações é relativamente grande, com petrechos de pesca altamente impactantes, como redes de emalhe que matam tubarões e tartarugas”, diz o ICMBio.

MUDANÇA RADICAL

A transformação não se limita ao mar. Segundo Lage, há três anos trabalhando diretamente no arquipélago, a diferença na vegetação e na fauna terrestre é perceptível. Pesquisadores que acompanham o local há décadas também relatam melhora.

A distância do continente, diz ele, ajudou a transformar Alcatrazes em um laboratório natural com criação de espécies próprias. O biólogo lembra que a região esteve ligada ao continente há milhares de anos, quando o nível do mar era mais baixo. Com a elevação das águas, os animais que ficaram isolados nas ilhas passaram a evoluir em condições diferentes das encontradas no continente.

É o caso da jararaca-de-Alcatrazes (Bothrops alcatraz), uma serpente menor que a jararaca continental e adaptada às condições particulares do local.

A vegetação também guarda espécies únicas. Orquídeas, bromélias, antúrios e begônias ocupam principalmente os costões rochosos. São plantas adaptadas a um ambiente com pouca disponibilidade de água doce, contudo com elevada umidade proporcionada pelo mar e pela mata fechada.

Para ele, é justamente esse isolamento que faz de Alcatrazes um ambiente tão particular.

Recentemente, pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro encontraram ali uma espécie de begônia que não era vista havia mais de cem anos e era considerada extinta.

Um problema atual é a proliferação de Seguieria americana, planta nativa da mata atlântica e do próprio arquipélago.

Favorecida por perturbações humanas históricas na região do ninhal, a espécie passou a crescer de forma descontrolada. Com grandes espinhos, ela recobriu árvores usadas pelas fragatas para fazer seus ninhos.

Segundo a agente ambiental do ICMBio Thayna Mello, aves morreram feridas pelos espinhos. “Liberamos algumas dessas árvores para que as fragatas pudessem voltar a construir seus ninhos.”

DE ÁREA DE TIROS A REFÚGIO

Em 1979, foi estabelecida no arquipélago de Alcatrazes a raia de tiro Almirante Newton Braga de Faria, destinada à realização de exercícios militares.

A ilha de Alcatrazes foi utilizada como alvo para treinamentos de tiro da Marinha até 2013, quando a atividade foi direcionada à vizinha ilha da Sapata. A área permanece restrita, sem visitação pública.

Desde 2022, não há registro de exercícios de tiros na área. “A eventual retomada dessas atividades permanece condicionada às tratativas com os órgãos ambientais competentes e à observância das exigências legais e ambientais aplicáveis”, diz a Marinha.

Segundo o ICMBio, em 2023 foi dado início à execução de um acordo de cooperação com a Força, firmado para adequações ambientais na ilha, uso das instalações militares para o monitoramento da pesca ilegal e instalação de sistema fotovoltaico e internet via satélite na ilha principal.

Em nota, a Marinha afirma que exerce na região atribuições de autoridade marítima para segurança da navegação, salvaguarda da vida humana no mar e prevenção da poluição hídrica causada por embarcações.

“A Marinha do Brasil permanece presente no arquipélago, podendo atuar de forma integrada com os órgãos ambientais em ações de fiscalização e proteção da região, inclusive, por meio de operações coordenadas e do emprego de seus meios navais”, diz a Força, em nota.

BIODIVERSIDADE DE ALCATRAZES

Peixes

  • 259 espécies identificadas, com grande variedade de formas e cores
  • As águas do arquipélago estão entre as áreas de maior diversidade de peixes do Sudeste

Aves

  • 103 espécies registradas
  • Alcatrazes abriga o maior ninhal de fragatas do Atlântico Sul e é área de alimentação, reprodução e descanso para mais de 10 mil aves marinhas

Mamíferos marinhos

  • 10 espécies registradas, entre as quais baleias e golfinhos
  • Baleias-jubarte são mais comuns no outono e inverno

Tartarugas marinhas

  • Há registros de tartaruga-verde e tartaruga-de-pente, ambas ameaçadas de extinção

Tubarões e raias

  • O arquipélago é habitat de diversas espécies de elasmobrânquios
  • Tubarão-martelo é um dos que pode ser observado, segundo o ICMBio

Invertebrados marinhos

  • São 465 espécies de invertebrados bentônicos identificadas, animais que vivem associados ao fundo do mar, como organismos de recifes e costões rochosos

Vegetação e algas

  • Levantamento do plano de manejo identificou 320 espécies de plantas e 64 espécies de macroalgas, compondo os ambientes terrestres e marinhos do arquipélago

Restrição total

  • O arquipélago dos Alcatrazes e o entorno da ilha Anchieta (em Ubatuba), onde estão localizadas as ilhas de Cabras e Palmas da Estação Ecológica Tupinambás, são as únicas áreas com restrição total de pesca no litoral norte de São Paulo

noticia por : UOL

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