Robert Prevost foi eleito Papa em 8 de maio de 2025 e escolheu chamar-se Leão XIV. A decisão chamou a atenção: nenhum líder da Igreja Católica havia adotado o nome Leão desde Leão XIII, morto em 1903. Em seus primeiros discursos, o novo pontífice explicitou o motivo: pretendia enfrentar a inteligência artificial como seu homônimo havia enfrentado a Revolução Industrial. A pista virou programa em 15 de maio de 2026, exatamente 135 anos depois da promulgação da Rerum Novarum. Nesse dia, Leão XIV assinou sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA. A escolha da data não foi casual.
A pergunta que essa coreografia toda coloca é se a encíclica nova consegue fazer pela IA o que a antiga fez pelo trabalho industrial. A resposta exige começar pelo documento de 1891.
O que Leão XIII inventou
Antes da Rerum Novarum, a Igreja não tinha uma doutrina social organizada. Tinha princípios morais sobre justiça e caridade, espalhados em sermões, teologia escolástica, decisões pastorais. O que faltava era um corpus articulado, capaz de dialogar com a modernidade econômica em seus próprios termos. Leão XIII formulou esse corpus diante de uma transformação que já não podia ser ignorada: a Revolução Industrial havia produzido uma classe operária urbana cuja condição moral e material exigia uma palavra que não viesse nem do socialismo nem do liberalismo dominantes.
O método foi a invenção mais durável do documento. Leão XIII recusou simultaneamente as duas saídas que se apresentavam como evidentes. Contra o socialismo, defendeu a propriedade privada como direito natural, enraizada na vocação do homem ao trabalho e ao cuidado da família. Contra o laissez-faire liberal, sustentou que há uma justiça anterior ao contrato livremente acordado: o salário deve ser suficiente para sustentar com dignidade o trabalhador “sóbrio e honrado” e sua família, independentemente do que as partes tenham combinado. A propriedade é legítima, mas tem função social. O mercado é legítimo, mas não dispensa o critério moral.
Entre essas duas afirmações abriu-se o espaço em que se desenvolveria toda a doutrina social do século XX. Pio XI formalizou a subsidiariedade. João XXIII trouxe os direitos humanos para o centro. O Concílio Vaticano II reorganizou a relação da Igreja com a modernidade. João Paulo II construiu sobre Leão XIII a defesa da dignidade do trabalho contra o utilitarismo do mercado e contra a opressão dos regimes comunistas. Bento XVI insistiu na caridade como critério econômico. Francisco trouxe a crise ambiental e os descartáveis para o centro. Mas a estrutura básica, como a recusa simultânea dos extremos, o primado da pessoa e a justiça anterior ao contrato, vem de 1891.
Duas transformações, uma estrutura
A Magnifica Humanitas começa explicitando essa filiação. Logo no parágrafo 3, Leão XIV escreve que celebra com “viva gratidão” o 135º aniversário do documento de seu predecessor. Reconhece que o Papa de 1891 “deu impulso, com este documento, àquela reflexão sobre a sociedade, a economia e a política a que hoje chamamos Doutrina social da Igreja”. E faz a transposição: se Leão XIII falava de rerum novarum (coisas novas) referindo-se à indústria e ao conflito entre capital e trabalho, as novas “coisas novas” do nosso tempo são a digitalização, a inteligência artificial e a robótica.
A analogia é audaciosa. Implica que estamos diante de uma transformação tecnoeconômica de magnitude civilizacional comparável àquela do fim do século XIX. Os números podem dar substância à comparação. A Revolução Industrial reorganizou o trabalho de centenas de milhões de pessoas ao longo de várias décadas. A revolução da IA está fazendo o mesmo em ritmo muito mais rápido: pesquisa do World Economic Forum de 2025 estimou que 41% dos empregadores globais pretendem reduzir suas equipes em função da inteligência artificial. Empresas como Amazon, Microsoft, Meta e Google já fizeram cortes massivos em meio a reestruturações voltadas à adoção da tecnologia. O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, afirmou no fim do ano passado que, ajustada pela criação real de postos, a geração de empregos nos Estados Unidos está próxima de zero, em parte por causa da automação.
O diagnóstico que Leão XIV apresenta no parágrafo 5 ecoa, em outra chave, o que Leão XIII descrevia em 1891. Mas há um deslocamento decisivo. “Outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inovação”, escreve o novo Papa. “Hoje, pelo contrário, os principais motores do desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos.” A configuração de poder mudou. E a doutrina social precisa mudar com ela.
Onde os princípios precisaram se mover
O exercício central da Magnifica Humanitas é a reformulação de princípios clássicos para responder a essa nova configuração. O caso mais notável é o da subsidiariedade. Desde Pio XI, na década de 1930, o princípio era pensado como proteção da pessoa, da família e dos corpos intermediários contra a absorção pelo Estado. Era, no fundo, um princípio antitotalitário, formulado num continente que assistia à ascensão dos fascismos e do comunismo soviético.
Leão XIV mantém a estrutura mas inverte o vetor. “Aqui, a instância superior não é o Estado, mas cada um dos grandes sujeitos econômicos e tecnológicos que exercem um poder real sobre as condições da vida em comum”, escreve no parágrafo 71. A subsidiariedade precisa ser aplicada, portanto, contra o capital tecnológico concentrado — não em substituição ao princípio clássico, mas em extensão dele. É uma atualização significativa que mostra, em ato, o que significa manter viva uma tradição: não repetir suas conclusões, mas refazer seus gestos diante de problemas novos.
O movimento se repete em outros pontos. No princípio da destinação universal dos bens, o novo Papa inclui dados, algoritmos, plataformas digitais e infraestruturas tecnológicas entre os bens cuja propriedade não pode permanecer exclusivamente privada. “A propriedade dos dados não pode ser confiada apenas a particulares, mas deve ser regulamentada”, afirma no parágrafo 108. “Estes são fruto da contribuição de muitos e não podem ser vendidos ou confiados a poucos.” A afirmação tem implicações regulatórias massivas se levada a sério.
No princípio da justiça social, Leão XIV reconhece que algoritmos opacos podem reproduzir e amplificar discriminações sem que a injustiça resultante seja identificável como tal, porque “o descarte dos fracos é revestido de neutralidade e objetividade, perante as quais é impossível protestar”. É o velho problema da exclusão estrutural, descrito por João Paulo II nos anos 1980 como “estruturas de pecado”, agora amplificado por sistemas técnicos cuja opacidade torna a denúncia mais difícil.
A ferida que volta como espelho
Há um trecho da Magnifica Humanitas em que Leão XIV faz algo que Leão XIII não fez — e que constitui, talvez, a passagem mais arriscada do documento. Está nos parágrafos 173 a 178, dentro de uma discussão sobre as novas formas de dependência geradas pela economia digital.
O Papa descreve, com franqueza incomum em documento magisterial, o que sustenta materialmente a inteligência artificial. “No mundo da IA, nada é imaterial ou mágico”, escreve. “Cada resposta que parece imediata e perfeita provém de uma longa cadeia de mediações, de uma rede alargada de recursos naturais, de infraestruturas energéticas e, sobretudo, de pessoas.” Enumera os trabalhadores invisíveis empregados na etiquetagem de dados e moderação de conteúdos, em geral jovens mulheres pagas por remuneração mínima; adolescentes e crianças “em condições perigosas na trituração dos materiais donde se extraem as terras raras”; vítimas de tráfico humano recrutadas pelas mesmas plataformas que sustentam a economia global. As realidades são documentadas: a Time reportou em 2023 que a OpenAI usou trabalhadores quenianos pagos menos de dois dólares por hora para tornar o ChatGPT menos tóxico; pesquisadores como Mary L. Gray e Siddharth Suri mapearam o trabalho fantasma da indústria algorítmica no livro Ghost Work.
A novidade é o que vem em seguida. Leão XIV recorda que foi Leão XIII, em 1888, na encíclica In Plurimis, quem formulou a primeira condenação papal absoluta da escravidão. Antes disso, durante quase dezoito séculos, instituições e pessoas eclesiásticas tiveram escravos. A Santa Sé chegou a regular e legitimar, por meio de bulas pontifícias, as condições em que era lícito reduzir certos povos à servidão. “Trata-se duma ferida na memória cristã, à qual não podemos ficar alheios”, escreve o novo Papa. “Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.”
E completa, no parágrafo seguinte: “Se não quisermos, no futuro, pedir perdão por termos sido infiéis ao tesouro da dignidade humana que a nossa fé encerra, cabe-nos hoje ser diretos e firmes em denunciar as múltiplas manifestações” das novas dependências digitais.
A lógica é cortante e une os dois Leões em ato. Foi Leão XIII quem fechou, com um documento de 1888, dezoito séculos de cumplicidade institucional com a escravidão. É Leão XIV quem invoca essa virada para argumentar contra outra cegueira moral em formação. A passagem não está afirmando que trabalhadores de IA são “novos escravos” no sentido estrito — categoria que exigiria cuidado para não banalizar a violência específica da escravidão racial moderna. Está dizendo algo mais sutil: a estrutura moral que tornou a escravidão tolerável por tantos séculos é a mesma estrutura que está se reorganizando em torno das margens do sistema digital. A diferença é que em 2026 não temos a desculpa da ignorância. Sabemos como funciona esse tipo de cegueira. Se errarmos agora, erramos com olhos abertos.
O que cabe ao fiel
Os dois momentos guardam semelhança histórica que ajuda a entender por que cada Papa achou que precisava se pronunciar. Em 1891, a Europa industrial vinha de quatro décadas de transformação acelerada: ferrovias, telégrafo, motor a vapor, eletricidade, produção em massa. As estruturas tradicionais de proteção ao trabalhador haviam sido desmontadas sem substituição. Era preciso uma palavra antes que o vazio fosse preenchido apenas pelas duas ideologias então em ascensão. A Rerum Novarum chegou nesse intervalo, e fundou um vocabulário que ainda hoje organiza o pensamento social católico.
O paralelismo com 2026 é mais que retórico. As últimas duas décadas viram a digitalização da vida cotidiana, a expansão das plataformas, a chegada dos grandes modelos de linguagem. As estruturas tradicionais de mediação (escola, família, jornalismo e instituições representativas) convivem com tecnologias que reorganizam atenção, trabalho, comunicação e decisão em ritmo que nenhuma geração anterior conheceu. Magnifica Humanitas chega no mesmo tipo de intervalo: antes que o vazio seja ocupado apenas pelas lógicas que hoje disputam o controle da tecnologia. Em ambos os casos, a Igreja se pronuncia não para regular o novo mundo, mas para nomear princípios que sobrevivam à transição.
E o documento traz recomendações concretas. Aos pais, Leão XIV pede atenção especial à exposição precoce de crianças e adolescentes a dispositivos digitais, redes sociais e conteúdos prejudiciais — pede que não enfrentem sozinhos a influência de modelos de negócio que capitalizam a atenção, e que cobrem do poder público medidas legislativas que estabeleçam limites de idade e responsabilizem as plataformas. Às escolas, pede que recuperem o tempo lento da formação, contra a cultura do imediato e da hiperestimulação: “devemos educar-nos ao jejum da IA”, escreve no parágrafo 140, “e proteger os nossos jovens das promessas da máquina perfeita”.
Aos trabalhadores e às organizações sindicais, pede que se abram às novas formas de trabalho que a economia digital cria, sem aceitar a precariedade como condição normal. Aos empresários e investidores, pede que adotem critérios claros de avaliação ética preventiva, transparência nas cadeias produtivas, e que reconheçam o trabalho invisível que sustenta os sistemas algorítmicos. Aos programadores e pesquisadores de IA, dirige um apelo específico no parágrafo 111: “cada escolha feita no projeto expressa uma visão da humanidade”, e por isso eles “são chamados a tratar com a devida seriedade os valores que infundem nos seus projetos”.
Aos cidadãos comuns, pede algo que parece menos exigente mas talvez seja o mais difícil: que olhem. Que perguntem, antes de cada nova ferramenta lançada, quem está pagando o preço material por aquela inteligência aparentemente desencarnada. Que se recusem a tratar a opacidade como neutralidade. Que cultivem o que o documento chama, no parágrafo 137, de “ecologia da comunicação”. Ou ssja, sobriedade no consumo digital, valorização do encontro presencial e atenção aos vínculos que as redes ameaçam dissolver.
Nada disso é novo no sentido de inédito. Leão XIII também pedia aos patrões que respeitassem a dignidade do trabalhador, aos operários que recusassem a violência como instrumento de reivindicação, ao Estado que protegesse os mais fracos sem absorver os corpos intermediários. O que era novo em 1891 era a aplicação desses princípios ao mundo das fábricas. O que é novo em 2026 é a aplicação ao mundo das plataformas, dos algoritmos e da inteligência artificial. A continuidade é deliberada. Quando Leão XIV cita Leão XIII repetidamente ao longo da Magnifica Humanitas, está afirmando que a tarefa é a mesma. Mudou o terreno, não o método.
A Rerum Novarum levou décadas para produzir efeitos visíveis. Inspirou sindicatos católicos, partidos democratas-cristãos, encíclicas posteriores que aprofundaram seus princípios. Sua leitura completa, hoje, exige paciência: o texto tem mais de cem anos e fala de um mundo que já não existe. Mas seu método sobreviveu, e foi esse método que Leão XIV decidiu retomar. Cento e trinta e cinco anos depois, outro Papa escreve sobre as coisas novas e devolve aos fiéis a mesma tarefa antiga: discernir, dentro do que está sendo construído, o que protege a pessoa humana e o que a reduz.
noticia por : Gazeta do Povo


