Por alguns anos, o Ocidente parecia ter adotado uma nova referência moral: o chamado “movimento woke” – que colocou raça, gênero e sexualidade como os temas centrais do debate público. Empresas passaram a tratar o Mês do Orgulho como um compromisso corporativo obrigatório; universidades criaram departamentos e cargos voltados à diversidade; celebridades passaram a medir cada palavra e políticos aprenderam que um deslize fora do vocabulário identitário podia custar caro.
O woke deixou de ser apenas uma tendência cultural e passou a ocupar salas de reunião, campanhas publicitárias, instituições de ensino e repartições públicas. Especialmente depois de 2020, consolidou-se a impressão de que essa transformação era definitiva.
Agora, porém, algo mudou. Não necessariamente porque o mundo tenha se tornado mais conservador, mas por uma razão mais específica: ideias que pareciam destinadas a se expandir indefinidamente começaram a enfrentar resistência.
Artistas que se encaixavam no antigo consenso passaram a criticá-lo. Na política, diversas figuras tentam ajustar o discurso do ativismo woke. Partidos buscam maneiras de voltar a dialogar com eleitores mais preocupados com inflação, moradia e segurança do que com disputas culturais. A questão, portanto, já não é sobre quem fala mais alto nas redes sociais, mas o que a maioria realmente pensa.
Juntos, esses episódios formam uma questão difícil de ignorar: o mundo que se tornou woke está começando a abandonar essa ideologia? A Gazeta do Povo preparou uma lista de nove sinais que mostram que, se não está acabado, o movimento perdeu grande parte de sua força — no Brasil e no exterior.
1 – Patrulha ideológica woke começa a incomodar artistas dentro da própria esquerda
No Brasil, declarações recentes de Wagner Moura e Nando Reis colocaram em evidência uma reação contra aquilo que ambos identificam como excesso de patrulha ideológica e de cancelamento dentro do próprio campo progressista.
Moura, por exemplo, classificou os exageros do identitarismo como “fascismo de esquerda”; posteriormente ele classificou a expressão como inadequada. Ainda assim, manteve a crítica à cultura de cancelamento e ao ambiente de intolerância que, segundo ele, atravessa o debate político.
Reis, por sua vez, anunciou que deixará de falar de política depois de sofrer prejuízos comerciais e boicotes. Ao UOL, o cantor afirmou que “isso é completamente inútil, ficar falando com quem não quer ouvir”.
2 – Partido Democrata quer deixar o “Woke 1” para trás
Um dos sinais mais curiosos da mudança de ambiente político vem de dentro do próprio Partido Democrata dos EUA. Alexandria Ocasio-Cortez, uma das principais estrelas da esquerda americana, passou a tratar o período político que marcou a ascensão do progressismo identitário no início da década como algo que deveria ficar para trás. Em entrevista recente à ABC, a deputada classificou o chamado “Woke 1” como “louco”, e procurou separar sua atuação atual de posições que marcaram a esquerda americana durante os protestos de 2020, como o debate sobre desfinanciamento da polícia.
A mudança é significativa não porque a deputada tenha abandonado o progressismo — ela não abandonou. O que está mudando é a embalagem política. A esquerda americana passou a dar mais espaço a temas como custo de vida, moradia, salários e economia, tentando falar com eleitores que não necessariamente se identificam com a linguagem identitária que ganhou força no início da década.
3 – Na Disney, a diversidade voltou a prestar contas ao negócio
Em fevereiro de 2025, a Disney anunciou alterações em seus programas de DEI. O programa Reimagine Tomorrow, criado para ampliar vozes de minorias e a representação na produção cultural, foi encerrado. A companhia também modificou critérios de avaliação de executivos, substituindo uma meta específica de aumento da diversidade de lideranças por um fator mais amplo de “estratégia de talentos”.
A Disney enxergou que sua força de trabalho deve refletir os consumidores e, sobretudo, ajudar a impulsionar os negócios. Em outras palavras, diversidade deixou de ser um objetivo institucional autônomo e passou a ser apresentada dentro de uma lógica mais diretamente ligada aos resultados financeiros da empresa.
4 – Sophie Cunningham enfrenta ativistas sem ser cancelada
Sophie Cunningham tornou-se um dos rostos mais improváveis da reação cultural contra determinadas políticas identitárias. A jogadora da WNBA ganhou enorme visibilidade depois de se manifestar sobre a participação de atletas trans em esportes femininos, defendendo a proteção das mulheres e meninas. O episódio transformou uma atleta de uma liga fortemente associada a pautas progressistas em uma figura celebrada pelo público conservador. Em outros tempos, ela arriscaria perder contratos de publicidade. Mas, em 2026, as declarações não atrapalharam o lançamento do seu tênis personalizado, produzido pela Adidas, que tem sido sucesso de vendas.
A exposição de Cunningham cresceu rapidamente, suas redes sociais ganharam seguidores e suas vendas de camisas e oportunidades comerciais aumentaram. O caso ganha mais força quando colocado ao lado das pesquisas de opinião. Em 2025, 66% dos americanos diziam apoiar regras que exigissem que atletas trans competissem em equipes correspondentes ao sexo atribuído no nascimento — oito pontos a mais do que em 2022.
5 – Empresas privadas e a grande marcha para trás na DEI
Meta, Target, Walmart, Tractor Supply, John Deere e outras grandes companhias norte-americanas reduziram, reformularam ou encerraram programas e metas associados à diversidade, equidade e inclusão. A Target, por exemplo, anunciou em janeiro de 2025 o fim de seu programa de DEI e de sua iniciativa de equidade racial, enquanto empresas como Meta e Walmart já haviam iniciado movimentos semelhantes.
Esses são sinais claros de um recuo da DEI como projeto institucional explicitamente identificado por esse nome e associado a metas, departamentos, treinamentos e compromissos públicos. O que está em crise não é necessariamente a ideia de contratar pessoas para atingir metas de diversidade, mas a forma como grandes empresas passaram a falar — e a agir — sobre essa questão depois de 2020.
6 – Universidades americanas desmontam estruturas que pareciam permanentes
Se as empresas estão recuando, as universidades estão fazendo algo ainda mais profundo: alterando a estrutura institucional criada em torno da DEI. O jornal Chronicle of Higher Education, especializado em universidades dos EUA, acompanha esse processo desde 2024 e já registrou mudanças em centenas de instituições. Escritórios foram fechados ou rebatizados, cargos eliminados, treinamentos antes obrigatórios foram tornados opcionais, declarações de diversidade retiradas de processos de contratação e promoção e programas tiveram financiamento reduzido ou encerrado.
Entre os exemplos estão a Universidade de Missouri, que retirou financiamento institucional específico de grupos estudantis identitários; a NYU, que cancelou 13 cerimônias de formatura voltadas a grupos culturais, identitários ou religiosos; e Yale, que encerrou uma iniciativa de DEI de cinco anos.
Parte dessas mudanças decorre diretamente de leis estaduais ou da pressão do governo federal, enquanto outras foram tomadas voluntariamente pelas próprias universidades. Mais de 80 instituições fizeram alterações sem uma obrigação legislativa direta, o que mostra que a estrutura institucional que sustentava a expansão da DEI no ensino superior americano está, de fato, encolhendo.
7 – Governo dos EUA, que antes promovia a DEI, passa a desmontá-la
No governo federal americano, a mudança foi ainda mais explícita. Em 20 de janeiro de 2025, Donald Trump assinou uma ordem executiva determinando que as agências federais coordenassem a eliminação de programas, políticas, cargos e atividades de DEI. O texto determina a terminação dessas estruturas “sob qualquer nome” pelo qual aparecessem dentro do governo federal.
A medida inverteu uma política que havia se expandido durante governos democratas e transformou o próprio governo federal em agente da desmontagem. Em vez de financiar ou incentivar determinadas políticas de diversidade, o Executivo passou a determinar sua eliminação e a questionar práticas que classificava como preferências baseadas em raça ou outros critérios identitários. A mudança alcançou ainda relações com universidades, contratantes e outras instituições dependentes de recursos federais.
8 – Movimento Black Lives Matter chegou ao auge em 2020 e perdeu apoio
Poucos símbolos representam tão bem a atmosfera de 2020 quanto o Black Lives Matter. Depois da morte de George Floyd durante uma abordagem policial, o movimento alcançou seu maior nível de apoio na história: 67% dos americanos declaravam apoiá-lo em junho daquele ano.
O volume de manifestações e de publicações com a hashtag #BlackLivesMatter também explodiu naquele período, transformando a questão racial em um dos principais assuntos da política e da cultura americanas.
Cinco anos depois, o cenário mudou. O BLM ainda não desapareceu, mas perdeu o status de fenômeno cultural quase consensual que alcançou no verão de 2020. Pesquisa do Pew Research Center mostrou que apenas 32% dos americanos consideravam o movimento eficaz para chamar atenção ao racismo contra negros.
9 – A opinião pública se afasta de posições mais progressistas sobre identidade de gênero
A mudança de opinião sobre questões trans oferece talvez o melhor conjunto de números para mensurar uma alteração real no ambiente woke. Segundo o Pew Research Center, dois terços dos americanos apoiavam, em 2025, leis que obrigassem atletas trans a competir em equipes correspondentes ao sexo atribuído no nascimento. São oito pontos a mais do que em 2022.
A tendência não se restringia ao esporte. O apoio à proibição de profissionais de saúde oferecerem tratamentos relacionados à transição de gênero a menores aumentou em relação a 2022. Também cresceram o apoio para exigir que pessoas trans usassem banheiros correspondentes ao sexo de nascimento e o apoio à proibição de que escolas públicas ensinassem sobre identidade de gênero no ensino fundamental.
Em resumo, o wokismo ainda não está desaparecendo da sociedade americana, e a diversidade ainda não se tornou algo impopular. O que parece estar desaparecendo é a ideia de que uma determinada fórmula — DEI institucionalizado, linguagem identitária, metas de representação e ativismo cultural — seja necessariamente um caminho natural e irreversível.
noticia por : Gazeta do Povo







