Ary Mirelle resolveu responder no último fim de semana a um internauta que cobrava do marido dela, o cantor João Gomes, uma declaração de voto no segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Ela contou que, desde a última eleição em que se manifestou, João toma antidepressivos fortes para conseguir se levantar e trabalhar, e que a família recebe ameaças envolvendo os dois filhos pequenos do casal.
O relato apareceu no meio de uma campanha que ganhou força depois que Flávio terminou o primeiro turno com mais de 2 milhões de votos à frente do presidente. Desde então, o silêncio de artistas virou sinal de cumplicidade, e a cobrança caiu com mais força sobre quem já tinha sido punido justamente por se manifestar.
O patrulhamento tomou forma quando o humorista e roteirista Vinicius Antunes, conhecido como Cacofonias, publicou montagens feitas com inteligência artificial em que celebridades aparecem impressas em caixas de leite, como nas campanhas de busca por pessoas desaparecidas. Além de João Gomes e Selton Mello, a lista incluía nomes como Gisele Bündchen e Vini Jr. No X, publicações do mesmo tipo acrescentaram outros alvos. Uma delas perguntava aos famosos se estavam a favor dos ricos ou ao lado dos pobres.
Na sexta-feira (9), o ator José de Abreu, apoiador declarado de Lula, publicou um vídeo em que cobrava nominalmente quatro colegas, entre eles Selton Mello e Carolina Dieckmann. Disse que eles não precisavam falar de eleição, de Lula ou do PT, e que bastava se posicionarem contra o que chamou de “fascismo”. No domingo (11), Dieckmann postou no Instagram uma imagem com a palavra “democracia” e uma estrela em referência ao PT. Abreu comentou embaixo: “Bom dia. Benvinda! [sic]”.
Personagem não vota
Selton Mello concentrou a maior parte das cobranças por ter interpretado Rubens Paiva em Ainda Estou Aqui, o filme de Walter Salles sobre a família do deputado assassinado pela ditadura, vencedor do Oscar de filme internacional em 2025.
Abreu disse não ser possível que alguém que fez um filme sobre a ditadura ainda não tivesse se pronunciado. Nos comentários da montagem de Cacofonias, um internauta escreveu que em geral um artista não tem obrigação de nada, mas que Selton tem, porque ganhou com o filme. Pelo raciocínio, o trabalho de um ator num longa passa a obrigá-lo a apoiar o candidato que parte do público associa ao tema da obra.
O caso de João Gomes é mais complexo. Em 4 de setembro de 2022, aos 20 anos, ele se tornou o primeiro nome do piseiro a se apresentar no Rock in Rio. No festival, gravou um vídeo em que puxava o coro “Ei, Bolsonaro”, completado pela plateia com um palavrão. Pouco depois pediu desculpas nas redes. Escreveu que não apoiava qualquer bandeira, que não deveria ter citado aquele nome e que era um eterno aprendiz.
Dias depois, o Sindicato Rural de Imperatriz, no Maranhão, recusou ceder o Parque de Exposições da cidade para um show dele previsto para 29 de outubro, e diretores da entidade gravaram um vídeo dizendo que o cantor não era bem-vindo por ter tratado mal o presidente.
Em 2026, a cobrança vem do campo oposto. O desabafo de Ary Mirelle veio depois que a influenciadora Josi Machado cobrou nas redes um posicionamento dos artistas do forró sobre a eleição. O ator Bemvindo Sequeira respondeu a Ary num comentário no Instagram. Escreveu que foi preso durante a ditadura, ficou paranoico, sofreu as mais graves questões mentais e não se calou um dia sequer. Sobre o cantor, concluiu: “Este rapaz é lamentavelmente de direita”.
O voto (ainda) é secreto
O artigo 14 da Constituição de 1988 estabelece que a soberania popular se exerce pelo voto direto e secreto, e o artigo 60 inclui o voto secreto entre as cláusulas que nenhuma emenda pode abolir. O sigilo garante que nenhum eleitor precise prestar contas do próprio voto, e vale para quem tem 17 milhões de seguidores no Instagram, como João Gomes, do mesmo jeito que vale para qualquer pessoa.
A campanha nas redes parte de uma premissa que nenhuma lei sustenta: a de que a opinião de um cantor ou de um ator tem peso eleitoral suficiente para pertencer ao público que o acompanha.
Até um parceiro de João Gomes que vai votar em Lula enxergou o problema. Mestrinho, que divide com ele e com Jota.pê o projeto Dominguinho, vencedor do Grammy Latino em 2025, publicou um vídeo no fim de semana defendendo que cada pessoa decida se quer ou não tornar público o voto. No mesmo vídeo, disse que não votará em Flávio nem em ninguém da família Bolsonaro e observou que quem mais cobra posicionamento costuma ser quem cancela quem pensa diferente.
noticia por : Gazeta do Povo




