Por que uma gigante da tecnologia está triturando milhões de livros físicos?

A Anthropic, empresa de Inteligência Artificial, está comprando e destruindo milhões de livros físicos para treinar seus sistemas de linguagem. A prática, revelada em documentos internos de 2025 e 2026, foi considerada legal por um juiz dos Estados Unidos sob a regra do uso legítimo. O processo gera polêmica entre livreiros e preservacionistas que veem a ação como uma ameaça ao patrimônio histórico.
Como funciona o processo de digitalização destrutiva utilizado pela empresa?
O método é prático, mas radical: a empresa compra o livro, remove a lombada para soltar as páginas e as coloca em scanners de altíssima velocidade. Após a captura digital do texto, o que resta do objeto físico é enviado diretamente para a reciclagem. Essa técnica é preferida pela indústria de IA por ser muito mais rápida e barata do que o escaneamento tradicional, onde é preciso virar página por página com cuidado para não danificar a obra. O objetivo é transformar o conteúdo escrito em ‘combustível’ digital para ensinar máquinas a escrever e pensar como humanos. No entanto, para que esse treinamento seja puro, a empresa busca livros publicados antes de 2022, garantindo que o computador não aprenda com textos que já foram gerados por outras máquinas na internet.
Qual foi a decisão da justiça sobre a destruição dessas obras?
Em uma decisão histórica proferida em 2025, o juiz federal William Alsup deu razão parcial à Anthropic. Ele entendeu que comprar, escanear e destruir um livro adquirido legalmente não viola os direitos autorais porque é um ‘uso transformador’. O raciocínio jurídico foi de que a cópia digital está apenas substituindo o exemplar físico que deixou de existir, portanto, não haveria criação de cópias extras ou distribuição ilegal. A grande ironia é que a lei acabou criando um incentivo para a destruição: se a empresa guardasse o livro de papel após escaneá-lo, ela poderia ser acusada de pirataria por manter duas cópias do mesmo material. Assim, para estar dentro da lei, a preservação do objeto físico tornou-se um risco jurídico que as empresas preferem evitar triturando o papel.
Por que livreiros e bibliotecários estão horrorizados com essa prática?
A reação dos profissionais do livro foi de puro choque, com muitos comparando a situação à queima da Biblioteca de Alexandria. O argumento central é que um livro é muito mais do que apenas a informação contida em seu texto. Existem elementos como a qualidade da encadernação, anotações feitas à mão por donos antigos, dedicatórias e o valor histórico de primeiras edições que nenhum scanner consegue capturar. Quando o último exemplar físico de uma obra esgotada é destruído, o objeto histórico desaparece para sempre da humanidade. Além disso, ao contrário de projetos anteriores como o Google Books, que criaram índices públicos para pesquisa, o acervo montado por essas empresas de IA é privado e trancado, servindo apenas para o lucro corporativo, sem acesso para autores ou leitores.
Existe algum limite para quais tipos de livros podem ser destruídos?
Oficialmente, a Anthropic afirma que não compra livros raros ou de colecionador, focando apenas em exemplares comuns encontrados no mercado de usados. No entanto, a linha que separa um livro comum de um raro é muito tênue e perigosa. Documentos do processo judicial mostraram executivos da empresa incentivando a compra de ‘livros menos comuns’ como um ótimo ponto de partida para o treinamento. O temor dos especialistas é que, na busca por volumes massivos de dados, obras em outras línguas ou de nichos específicos que possuem poucos exemplares restantes acabem indo parar nas máquinas de trituração. No fim, a discussão é sobre o acesso: um livro físico em um sebo é seu para sempre e funciona sem depender de ninguém; já o conhecimento ‘consumido’ pela IA é alugado ao usuário via assinatura mensal.
Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo. Para acessar a informação na íntegra e se aprofundar sobre o tema leia a reportagem abaixo.
noticia por : Gazeta do Povo





