quarta-feira, 1, julho , 2026 06:23

Morre Catherine Hirsch, poeta e dramaturga que atuou no Teatro Oficina

Catherine Hirsch, que morreu nesta quinta-feira (23) aos 79 anos, era uma artista rara, não só porque combinava as condições de poeta finíssima, dramaturga engenhosa, encenadora visionária e artista visual de trajetória incomum, mas porque em cada uma dessas artes específicas conjurava proposições singularíssimas.

Francesa de nascimento, e brasileira por convicção apaixonada, ela generosamente ofereceu os melhores e mais radiantes anos de sua vida à cultura e à cena brasileira.

Como muitos europeus que vieram ao Brasil nos anos 1940 e 1950 para trabalhar e fortalecer nosso teatro, ela chegou no fim dos anos 1970 como uma profissional bem formada e com grande experiência acumulada.

Mas, no caso de Hirsch, a opção nunca foi mercantil, de ambicionar contratos e bonança. No seu caso, os motivos sempre foram a amizade e o amor pela beleza e pela liberdade criadora. Assim, dedicou-se de corpo e alma a todas as pessoas e projetos que lhe pareceram interessantes e provocantes o suficiente para fazer avançar e transformar as relações humanas.

Suas parcerias artísticas sempre implicaram em paixões irresistíveis. Cabendo-lhe ou não a autoria nominal das obras, sua presença as imantava de uma áurea inconfundível. Fosse com Maria Alice Vergueiro, sua primeira companheira nos projetos brasileiros, fosse, no Teatro Oficina, como xamã incontornável a guiar os passos de José Celso Martinez Corrêa.

De fato, é impossível pensar o ciclo estupendo que a Uzyna Uzona viveu entre os anos 1980 e os anos 2020 sem a presença oracular e decisiva de Hirsch. Zé Celso a tinha como principal colaboradora e não houve projeto, encenação ou atuação pública extra teatral que ele tenha feito sem que ela, de algum modo, não lhe tenha soprado sugestões e inspirado soluções.

Desde “As Boas”, de Genet, em 1991, que antecipa a reabertura do novo Oficina e já tem Marcelo Drummond contracenando com Zé Celso, ela assume este lugar central, traduzindo a peça e a codirigindo.

Depois foram dezenas de espetáculos antológicos, sempre marcados pelo olhar agudo dessa francesa de alma brasileira, que veio a oferecer a mais bela e definitiva tradução do “teatro da crueldade” de seu compatriota Antonin Artaud —para Catherine aquilo era mesmo o “teatro do coração”.

Quando vieram, nos anos 2000, “Os Sertões”, ou os cinco espetáculos poderosos que reviveram a saga de Canudos em nível planetário, Hirsch foi a fortaleza que irradiou energia para todos os coros e os fez irem além de seus limites, para alcançarem as graças infinitas da alegria dionisíaca.

Uma artista com tantas realizações e que nunca fez questão de aparecer em primeiro plano, sempre discreta e quase invisível no frescor da sombra honrosa que lhe coube, merece muito as homenagens mais sinceras, os louros mais solares, os reconhecimentos mais irrestritos.

noticia por : UOL