quinta-feira, 11, junho , 2026 01:16

Proposta de monogamia de pastores irrita a Presbiteriana dos EUA


Uma proposta que pretende tornar obrigatória a monogamia para todo o clero ordenado da Igreja Presbiteriana (EUA) gerou críticas de diferentes comitês da denominação antes da Assembleia Geral que será realizada ainda neste mês em Milwaukee, nos Estados Unidos.

A medida foi apresentada pelo Presbitério de Sierra Blanca, no estado do Novo México, e propõe uma alteração no Livro de Ordem da igreja. O texto estabelece que membros do clero envolvidos em qualquer relacionamento de natureza sexual devem viver em relacionamentos monogâmicos.

Três órgãos consultivos da denominação se posicionaram contra a proposta: o Comitê de Defesa dos Direitos das Mulheres e da Justiça de Gênero, o Comitê de Defesa da Equidade LGBTQIA+ e o Comitê Consultivo de Políticas de Testemunho Social.

O Comitê de Defesa dos Direitos das Mulheres e da Justiça de Gênero afirmou que não apoia a medida por considerar que ela amplia o alcance da atuação da igreja sobre a vida privada dos indivíduos. Segundo o grupo, a proposta busca regular estruturas relacionais de uma forma que pode gerar riscos em vez de promover cura e acolhimento.

O comitê também citou um trecho do Livro de Ordem segundo o qual “só Deus é Senhor da consciência” e argumentou que a função da igreja é formar comunidades marcadas pela justiça, responsabilidade e amor, não impor uniformidade à vida pessoal dos fiéis. O parecer acrescenta que regras desse tipo podem reforçar sentimentos de vergonha, silêncio e coerção espiritual, especialmente entre pessoas que enfrentam situações consideradas complexas ou marginalizadas.

O Comitê de Defesa da Equidade LGBTQIA+ também rejeitou a proposta. O grupo afirmou que o texto utiliza linguagem considerada vaga e argumentou que poliamor e poligamia são conceitos distintos. O parecer menciona estudos sobre satisfação em relacionamentos poliamorosos e sustenta que a proposta adota uma visão limitada das estruturas familiares e dos relacionamentos humanos.

Já o Comitê Consultivo de Políticas de Testemunho Social recomendou uma abordagem diferente. Em vez da alteração proposta, o órgão defendeu a elaboração de um documento teológico abrangente sobre sexualidade humana e identidade de gênero, acompanhado de material de estudo e orientações sobre linguagem inclusiva e não binária.

A organização More Light Presbyterians, que reúne centenas de igrejas ligadas à denominação, também se manifestou contra a medida. Em comunicado divulgado no mês passado, a entidade afirmou que a proposta representa um retrocesso e levanta preocupações teológicas, pastorais e relacionadas à justiça.

Segundo o grupo, a iniciativa reforça definições consideradas restritivas de relacionamentos e pode contribuir para a exclusão de pessoas LGBTQIA+. A organização declarou ainda que o chamado de Deus não depende da conformidade com modelos relacionais específicos.

O debate ocorre mais de uma década após mudanças significativas na denominação. Em 2015, a maioria dos presbitérios aprovou uma emenda que passou a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em um período próximo à decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos no caso Obergefell v. Hodges. Em 2011, a igreja já havia autorizado a ordenação de pessoas LGBT assumidas.

O teólogo Robert Gagnon, pesquisador visitante do Seminário Bíblico Wesley, afirmou que a discussão sobre o poliamor é uma consequência das mudanças anteriores promovidas pela denominação. Segundo ele, a aceitação de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo levou ao questionamento de outros limites tradicionais relacionados à ética sexual cristã.

“Não se pode esperar eliminar o fundamento (um pré-requisito homem-mulher para todas as uniões sexuais) e depois esperar manter a posição com base em um princípio de número (apenas duas pessoas em uma união sexual a qualquer momento) extrapolado secundariamente do fundamento que você acabou de eliminar”, escreveu Gagnon, de acordo com o The Christian Post.

O pesquisador também declarou que a aceitação das uniões homossexuais representa uma mudança mais profunda na compreensão tradicional da ética sexual cristã do que o debate atual sobre o poliamor.





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