quarta-feira, 20, maio , 2026 07:04

Neymarzismo x ancelottismo

O neymarzismo venceu o ancelottismo –mas ainda estamos no primeiro round. De todo modo, já é possível assentar no embate entre esses dois neologismos não dicionarizados (ainda?) um modo de contar mais uma tentativa brasileira de chegar ao sexto título de Copa do Mundo.

Como foi revelado numa cerimônia provinciana de cafonice inédita no Museu do Amanhã, na última segunda (18), o Brasil vai ao Mundial levando seu único supercraque dos últimos tempos, um jogador em acentuado declínio físico.

Neymarzismo é uma palavra que circula há muitos anos para nomear o culto que cerca o jogador do Santos, louvado de forma irracional tanto por seu talento assombroso quanto por seus traços igualmente destacados de homem imaturo e atleta pouco profissional, uma espécie de Peter Pan festeiro que se quer inimputável.

Em desdobramento curioso, começou a circular nas redes há poucos anos a expressão crítica “neymarzismo cultural”. Nela, o jogador virou metáfora de uma tendência de comportamento mais ampla marcada por egocentrismo, exibicionismo, cidadania rala, espírito lacrador e alinhamento com os valores da extrema direita.

Ancelottismo, como palavra, não está na mesma prateleira. É um sabor vocabular da estação, em crescimento desde que o consagrado técnico italiano assumiu há um ano o comando da seleção brasileira. Pode incluir outros aspectos de seu estilo, como flexibilidade tática, mas a oposição ao neymarzismo se dá pela ênfase em disciplina, espírito de equipe, discrição e trabalho duro.

Que Carlo Ancelotti não queria levar Neymar Jr. para a Copa ficou evidente em cada uma de suas convocações anteriores à definitiva, das quais o astro da seleção nas últimas três disputas se manteve ausente.

Prevalecia a impressão de que, se havia um único treinador no mundo capaz de peitar o lobby pesado do neymarzismo –composto de histeria nas redes, fanfarra midiática, pressão de patrocinadores e apoio entre colegas boleiros–, era o vencedor de cinco títulos da Liga dos Campeões da Europa.

A vitória do neymarzismo na última hora se estampou na expressão contrariada do técnico, sobretudo ao lamentar a ausência de João Pedro, atacante do Chelsea em que vinha apostando nas convocações anteriores. Pareceu algo que ele se viu obrigado a engolir a fim de ter paz para trabalhar.

“Tem o mesmo papel e a mesma possibilidade dos outros 25, a mesma responsabilidade”, disse Ancelotti sobre o craque, traçando o conflito que virá a partir de agora entre impessoalidade e personalismo. Qual lado vai prevalecer? De que forma?

Não por acaso, trata-se do mesmo conflito que, terminando com a vitória do personalismo, explica por que o Brasil é como é, segundo a análise de Sérgio Buarque de Holanda em seu clássico “Raízes do Brasil”.

Longe de ser um detalhe, o resultado do embate entre ancelottismo e neymarzismo na seleção brasileira tem tudo para determinar a diferença entre fracasso e sucesso –este entendido não exclusivamente como título, mas como uma apresentação à altura da tradição da camisa amarela.


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noticia por : UOL